2 de junho de 2010

Carta do filho de Plinio Marcos


Plínio e os sambistas


Meu pai morreu

Dia 19 de novembro é aniversário da morte do meu pai, escrevi este texto no dia em que ele morreu: 19 de novembro de 99.

Meu pai morreu. Todo pai morre. Agora estou aqui pensando: o que foi que meu
pai me deixou? Apartamento? Não. Carro?Nem uma bicicleta. Dinheiro? Ele não
conseguia pagar nem as próprias contas. Mas pagava a dos filhos. Roupas? Só
um chinelo velho, mas meu pé é maior. Sem testamento, sem herança, sem nada?
As peças. As peças de teatro? De quem são as peças de teatro? Meu pai era
escritor. Escritor de teatro. Teatro? Teatro dá dinheiro. Tem gente que
escreve peça pra ganhar dinheiro. Não, meu pai não. Não ganhou muito
dinheiro com teatro. O que ganhou, gastou. Deu dinheiro pra muita gente. Meu
pai não era um bom administrador. Era um "maldito", diziam, um "marginal",
mas não era bandido. Por que ele era maldito, afinal? Será que não pensava
nos filhos? Por que não escreveu peça pra ganhar dinheiro? "Ninguém tem
direito de pedir a um artista que não seja subversivo.". Meu pai escrevia
sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta,
cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e
cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta,
cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e
desempregados não tinha "patrocínio". Mas eu queria tênis americano, eu
queria camisa Lacoste, camisa Hang Ten.

Meu pai tinha que ganhar dinheiro. Por que ele insistia em escrever peças
sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários? Ele insistia. Puta,
cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. E o ator e
Jesus Cristo e nada de "comédia comercial". Mas eu queria o meu "All Star",
eu queria ter todos os discos dos Beatles. "Pai, me dá dinheiro pra comprar
uma guitarra!" E eu tive, eu tive a tal guitarra, eu comprei todos os discos
dos Beatles com o dinheiro dele (depois tive que comprar tudo de novo em CD
com o meu dinheiro e agora dá pra baixar de graça na internet). Calça boca
fina, camisa Hang Ten. Onde ele arrumava dinheiro? Onde ele arrumava
dinheiro pra me comprar tênis "All Star"? Ele achava que isso era "lixo
americano". Ele achava que essa merda importada só servia pra aumentar a
nossa alienação. Meu pai era generoso. Ele não ia deixar de me dar uma
coisa que eu queria, só porque ele achava que o que eu queria era imposto
pela sociedade de consumo. Ele tentava me orientar, mas respeitava minha
opinião de adolescente alienado. Onde ele arrumava dinheiro?

Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e
presidiários, incomodava os "poderosos". Porra, ainda mais essa! Já escreve
sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é
proibido? "Pai, me dá dinheiro pra comprar disco do Bob Dylan!".

Meu pai fez novela, fez Beto Rockfeller. Mas Beto Rockfeller não conta, Beto
Rockfeller era A novela, tinha a cara dele, era revolucionária. Ele fazia o
Vitório, o melhor amigo do Beto. Ele ganhou um dinheiro, me comprou um
tênis, uma guitarra, um... Mas A novela era na Tupi. A Tupi faliu. Meu pai
foi fazer novela na Rede Globo: "Bandeira 2". Mas a Globo é no Rio, o Rio
tem praia, ele cabulava as gravações e ia pra praia: "Novela é chato pra
caralho, porra! O direito da gente coçar o saco é sagrado.", ele dizia. Ele
ia pra praia e lá ficava indignado porque naquela época a Globo não punha
negros nas novelas e quando punha era nos papéis de escravo ou mordomo. Meu
pai escreveu no jornal "A Última Hora" do Samuel Wainer, onde ele
trabalhava, que a Globo botou a Sônia Braga dois meses tomando sol pra ficar
escura, em vez de chamar uma mulata pra fazer "Gabriela". A Globo não
gostou. Os "poderosos" da Rede Globo não gostaram. Fizeram ameaças, juraram
de morte. Em fim, a Globo não dava mais. Quando ele tava por lá, ele bem que
quis escrever novela. Afinal, eu queria dinheiro pra comprar tênis, disco,
guitarra. Mas novela de puta, cafetão e cigano sem dente? Não, novela de
puta, cafetão e cigano sem dente não dá. Se fosse cigano com dente,
musculoso e mau ator, aí dava. Agora, cigano sem dente, pobre e fudido, não
dá. Então não dá. "Na televisão brasileira, artista estrangeiro morto
trabalha mais do que artista brasileiro vivo." Tudo bem, não podia fazer
peça de puta porque a ditadura não gostava, não podia novela de cigano
pobre, fudido e sem dente porque a T.V. não queria. Então o que que podia?
Não podia nem chamar a Rede Globo de racista, nem nada. A sinopse que ele
fez pra uma novela quando finalmente a Globo chamou ele, era de uma tribo de
ciganos que estupravam as filhas dos empresários e...bem, não aprovaram. E
as portas iam se fechando. E a ditadura ali, descendo o cassete. E eu queria
o meu tênis "All Star"! "Pai, porra, pai, eu quero dinheiro pra comprar time
de botão!" Mas enquanto os "poderosos" iam dizendo: Não! Não! Não! Ele ia
ganhando o respeito dos humildes de coração, um "povo que berra da geral sem
nunca influir no resultado", um povo fudido, os marginais, as putas, os
ciganos sem dente, os presidiários, um povo que não aparecia na T.V. "Pobre
na Rede Globo almoça e janta todo dia". Pobre na Rede Globo tem dente,
favela na Rede Globo não tem rato. Esse povo não era o povo dele. O povo
dele era entre outros, os sambistas, não esses de agora, de terno Armani,
cercados de loiras recauchutadas, mas, os sambistas das escolas de samba de
São Paulo. Os sambistas marginalizados, os que nunca gravaram CD. O Zeca da
Casa Verde, o Talismã, o Jangada, o Toniquinho Batuqueiro, o Geraldo Filme,
enfim, os que morrem na merda. "Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi,
mas foi sorrindo, a notícia chegou quando anoiteceu...".

Então a solução era fazer show com os sambistas. Meu pai contava histórias e
os sambistas cantavam suas músicas. Mas os sambistas eram crioulos. Negros?
Negro não podia. Em plena ditadura, Plino Marcos e "a negrada"? Que papo é
esse? Poder, podia, mas ninguém queria ver. "A burguesia não me quer", ele
dizia. Não podia peça de puta e novela de cigano sem dente pobre e fudido,
não podia dizer que a Globo era racista e ninguém queria ver show com "a
negrada". Então o que que podia? "Pai, me dá dinheiro pra comprar figurinha
do álbum Brasil Novo!"

A ditadura quando eu tinha 7 anos tava em todo lugar, em cada esquina, no
meio de cada casal que fazia "amor com medo", nos porões do Doicodi e nas
torturas atrozes que muitos sofriam e eu lá: "Pai, me leva na Expoex, pai,
me leva na Expoex! A Expoex é a exposição do exército! Eu quero ver os
soldados, pai! Eu quero ver os tanques!" E ele me levava. Senão eu chorava.
Eu chorava se eu fosse censurado e não pudesse ver a Expoex.

Quando eu tinha uns 12, 13 anos, lá estava o ônibus da escola pronto pra
partir pra Porto Seguro com todos os meus amiguinhos dentro e os pais, do
lado de fora, dando tchauzinho. E um amiguinho meu perguntou: "Quem é seu
pai?" Eu não tive dúvida: "Meu pai é aquele!" E o meu amiguinho: "Aquele de
terno e gravata? Aquele que tá conversando com o meu pai?" E eu: "É,
aquele." O meu amiguinho gritou: "Pai, esse aí é o pai do Leo!" E a
professora ouviu. Não, meu pai não era aquele de terno e gravata. Meu pai
era outro. Era o que todo mundo tava chamando de mendigo. Meu pai era aquele
de macacão e chinelo! Gordo de macacão e chinelo! "O pai do Leo é mendigo, o
pai do Leo é mendigo!" Afinal, quem trabalha tem que usar terno e gravata.
Naquela época, um moleque de 12, 13 anos, era um tapado. Ou isso era
característica minha? "Pai, por que você não trabalha? Pai, por que você
dorme até meio dia? Pai, por que o pai do Paulinho tem carro e você não? Por
que você chega de madrugada em casa? Pai, por que você anda de macacão e
chinelo? Pai, me dá dinheiro pra comprar..." E o meu pai me dava dinheiro.
Eu estudava em escola de "burguês". Eu estudei nas "melhores escolas". E
olha que o meu pai odiava escola. "A cultura nas mãos dos poderosos
constrange mais do que as armas; por isso, a arte e o ensino oficiais são
sempre sufocantes", ele dizia. Ele saiu da escola na 4ª série do primário.
Ele era canhoto. Na escola, as professoras o obrigavam a escrever com a mão
direita. Ele fugiu da escola, ele sempre foi da esquerda. Era chamado de
analfabeto. Com 21 anos escreveu "Barrela!". "Me chamavam de analfabeto,
como se isso fosse privilégio meu, neste país." Meu avô queria que ele
trabalhasse no Banco do Brasil, mas ele queria é subir num banco no meio da
praça e fazer números de palhaço. A família chegou até a pensar que ele era
débil mental. Meu pai foi pro circo. Ele amava o circo. Foi ser palhaço de
circo. Era o palhaço Frajola. A escola dele era o circo, a minha era escola
de "burguês". Mas como ele pagava a minha escola?

Foi preso, foi solto, ameaçado, escrevia em jornais e revistas, quase todos
que existiam. Foi despedido de todos. A censura não queria meu pai
escrevendo em lugar nenhum. O que fazer? Sair do país? Ele não falava
direito nem o português. O que fazer? "Pai, me dá dinheiro pra comprar uma
calça Soft Machine!".

Uma vez o meu pai tava com uma dívida muito grande, tava com dificuldade de
pagar as prestações de um apartamento que ele comprou pra gente. Daí um belo
dia a Ford ligou pra ele, convidando pra fazer um comercial. Era uma puta
grana, dava pra pagar as dívidas e ficar bem tranqüilo por uns tempos. Meu
pai não fazia comercial.

Foi vender livro na rua. Nas portas dos teatros, nas portas das faculdades,
nos bares. Foi vender livro na porta de teatros aonde se apresentavam
artistas piores do que ele. Ele mesmo editava os livros, ele mesmo ia
vender. E podia? Não. Não podia. Várias vezes ele foi expulso pelo "rapa"
como um camelô comum. E ele chorava? "Perseguido, o caralho! Eu não sou
nenhum mosca-morta. Eu fiz por merecer. Fui uma pessoa que aproveitou bem a
fama. Eu apedrejei carro de governador, quebrei vidraça de Banco. Foi uma
farra. Não teve mau tempo." Tinha. Tinha mau tempo, mas ele não reclamava,
eu nunca ouvi o meu pai reclamando da vida. Eu nunca ouvi o cara dizer que a
vida tava difícil, ou que era "foda". Não. Ele só reclamava das injustiças.
Ele berrava contra as injustiças, os preconceitos, a apatia. Meu pai é o
Plínio Marcos, porra! Bela merda, tem gente que nunca ouviu falar. Pra
muitos era só um fudido que não deu certo na vida, andando feito mendigo
pelo centro da cidade. Já morreu. Não era melhor do que ninguém. (Não?)

"Tudo se consegue com esforço; não se chega a lugar nenhum sem caminhar."

Com 15 anos eu quis sair da escola. Ele disse: "Sai logo dessa merda, eu te
sustento até você encontrar sua vocação!" Eu saí, eu saí daquela merda na
metade do 1º colegial. Acho que qualquer ser humano com o mínimo de
sensibilidade, sabe: o ensino do jeito que é, faz mal pra saúde.

Eu devia ter uns 17 anos, era de madrugada. Eu morava com ele. Eu tava na
mesa da sala com o violão, triste, querendo encontrar a minha vocação, sem
saber o que dizer, inibido, pensando em todos os artistas que eram muito
melhores do que eu. Meu pai levantou pra tomar água, me viu ali, não disse
nada. Foi até o escritório, voltou com um livro e leu um poema pra mim. "O
corvo" do Edgar Allan Poe. Não disse nada, só leu a poesia. Não foi o
conteúdo, foi o tom da voz dele, aquela voz doce que ele tinha. Ele
declamava e eu ouvia como se ele me pegasse no colo. Foi dormir e me deixou
ali, ouvindo o corvo dizer: "para sempre!". Eu virei escritor, com 21 anos
escrevi "Dores de Amores". Meu pai era um incentivador, idolatrava os
filhos. Queria ser mergulhador só porque o Kiko, meu irmão, é. A Aninha,
minha irmã, era tudo pra ele. Eu fiz vários shows com ele, pelas faculdades,
pelos teatros, pelos bares. Ele contava histórias e eu tocava violão. Meu
pai era generoso, violento, essencial, amava, amava tanto as pessoas que
chegava mesmo a odiá-las. Lutava, berrava e me acordava. Meu pai não me
deixou apartamento, carro, dinheiro, bicicleta. Nem o chinelo dele me serve.
Eu tive e tenho que ganhar o meu próprio dinheiro. Até hoje, muito pouca
gente quer montar as suas peças e muito pouca gente quer assistir. Meu pai
já não precisa mais vender livro na rua, pra quem não quer comprar, ou pra
quem compra só pra "ajudar". O que eu mais queria é que ele me ouvisse
agora: "Pai, você não me deixou nada que se possa enxergar. Nem carro, nem
apartamento, nem bicicleta, nem chinelo. Me deixou a sua indignação, um
pouco do seu temperamento, a lembrança de ver você acordando todo dia com
uma puta força de vontade, com uma puta vontade de viver, sempre alegre,
sempre fazendo piada das próprias desgraças, sempre dando tudo que ganhava
pros filhos, sem nunca acumular porra nenhuma." E se ele me escutasse ele
diria, com um sorriso malandro sem dentes, segurando as lágrimas: "Ê, Leo
Lama!" Meu pai não sabia receber elogios. Mas se ele me ouvisse agora, eu
diria:

Pai, eu preciso te contar, no seu velório foi muita gente, pai. No seu
velório, estiveram os maiores artistas do país. Médicos, políticos,
advogados, empresários, fãs, gente do povo, crianças e os sambistas. Os
sambistas cantaram sambas em sua homenagem, pai. Suas mulheres, seus amigos,
seus inimigos, todos nós, todos nós te aplaudimos quando o seu caixão foi
colocado em cima do carro de bombeiro. Eu tava segurando uma aba, o Kiko
outra. Você foi cremado, pai. Seus amigos fizeram discursos emocionados,
disseram: "Plínio Marcos, um grito de liberdade!" Nós jogamos suas cinzas no
mar de Santos. Na ponta da praia, onde você passou sua infância. O
Jabaquara, seu time, ficou na porta do pequeno estádio, uniformizado, com a
mão no coração, vendo o cortejo passar. O povo na areia batia no surdo e
entoava um canto mudo no crepúsculo santista e nós no barco deixávamos você
escorrer pelos nossos dedos como se você nem tivesse existido. Eu ainda quis
te achar no meio do mar, mas de repente já era só o mar. E você foi, como
todo mundo vai.

É isso aí, pai: tanta gente te amava. Você sabia? Acho que ninguém te amou
tanto como a minha mãe. O amor dela ecoa em mim.

Mas, e eu, pai? E eu? Será que eu vou ter a mesma fibra que você? Eu não
gosto de viver como você gostava. Eu não tenho a sua coragem. "A poesia, a
magia, a arte, as grandes sabedorias não podem habitar corações medrosos."
Eu acho que eu vou me vender, pai, eu acho que eu já sou um vendido. Eu só
queria ser essencial, essencial como você. É difícil. Eu reclamo. A vida tá
uma bosta! Tá difícil de encontrar pessoas essenciais, pai. As pessoas só
falam e pensam no que é supérfluo. Eu não tenho assunto. Eu me sinto
sozinho. Eu não sei sobre o que escrever. O mundo tá se destruindo, tem
muita gente fudida, tem muitas festas e muita fome. Que indecência, pai, que
vergonha que eu sinto desse tempo que eu vivo. Eu sei que você não tem saco
pra choramingo, pai, mas me deixa desabafar, pai, só hoje, me deixa te falar
sobre o sonho dessa gente, você sabe, essa gente, os "homens-pregos", fixos
no mesmo lugar. Essa gente quer ter carro, pai, casa com piscina, essa gente
quer ser rica e famosa, essa gente quer ser musculosa e quer ter bunda, essa
gente diz que acredita em Deus e fode ele, essa gente não quer ser
essencial, pai, essa gente... essa é a minha gente, pai, às vezes eu me olho
no espelho e me acho parecido com essa gente. Me perdoa.

Um beijo do seu filho, Nado, que ainda usa o nome artístico que a gente
inventou juntos: Leo Lama