2 de janeiro de 2012
30 de dezembro de 2011
Os 10 Melhores Álbuns de 2011, pelo dono do blog!
Agora é a minha vez! Faz uns três anos que não publico lista de 10 Melhores Filmes do Ano por aqui (a última foi em 2008, nesse link) porque a música acabou nos últimos anos ocupando um lugar bem grande que antes pertencia ao cinema aqui em casa. Então vamos lá falar dos destaques musicais de 2011 segundo o dono da casa... Importante lembrar que, embora eu mereça um coluna na Rolling (rá!), comentários técnicos aprofundados sobre música você não vai encontrar aqui, ok? De todo jeito tenho me divertido por aqui compartilhando álbuns, canções, e novidades que os outros compartilham comigo... Diferentemente da lista do ano passado (nesse link) tentarei fazer um ranking, mesmo sabendo que arrependerei depois, rsrs... Então, vamos aos 10 de 2011 (ou seriam os 20?).
10 - Florence + the Machine - "Cerimonials"

9 - Nina Kinert - "Red Leader Dream"

8 - Noah & the Whale - "Last Night on Earth"
7 - Chico Buarque - "Chico"

Ouvindo de primeira, o album novo do marido da Mariana e da Aretha, digo, do Chico, parece aquele esquema "mais do mesmo"... "o que não é menos ilustre em se tratando de Chico", pensei eu ouvindo assim nas corridas. Mas, se você colar o ouvido com cuidado, vai relembrar que Chico é Chico, e nesse álbum novo, com canções a partir de algumas de suas crônicas e poemas, ele nos entrega uma das obras mais delicadas e inspiradas do ano. Impossível não se apaixonar por "Tipo um Baião", "Essa Pequena" ou "Se eu soubesse", em dueto com Thaís Gulin, que vai no link abaixo...
6 - Elbow - "Build a Rocket Boys!"
O quinto album dos brtânicos mais queridos do rock alternativo chegou logo no começo do ano e arrebatou o coração do dono desse blog. E tem mais: se eu for cantor na próxima encarnação, eu queria vir com uma voz igualzinha a do Guy Garvey. Céus! Ouso dizer que o principal mérito da banda é o vocal do moço, o que não torna nada do todo menos impecável. Destaque para "Lippy Kids", "Open Arms" e "Dear Friends", três das canções que fazem a gente pisar nas nuvens nesse novo álbum.5 - Wilco - "The Whole Love"
Wilquinho do meu coração lançou seu álbum novo em versão on line por alguns dias em formato "vinil virtual" pra gente poder ouvir antes de comprar (ou piratear, cof cof). Não dá pra dizer muita coisa, não! Desculpa aí, patrão da Rolling, mas esse é daqueles que você ouve do começo ao fim, pedindo pra eles nunca mais deixarem de existir. Destaques? Tá bom: "I might" virou meu ringtone. E a faixa do link abaixo, "Sometimes It Happens", é fueda! Tecnicamente falando: caras, eu amo vocês! .
4 - Marcelo Camelo - "Toque Dela"
Coisa mais linda da carreira solo do (ex?)vocalista do Los Hermanos, Marcelo Camelo, é perceber o que era mais "dele mesmo" dentro da banda, uma discussão bem clichê sobre bandas e posteriores carreiras solos, etc, mas ok! Se por um lado se mantém os metais e a mistura de ritmos brasileiros com o rock, característicos dos hermanitos, o charme nas composições deste segundo album solo de Camelo, está no fato de assumir o tom romântico das letras por meio de seus sussuros deliciosos e do dedilhado suave nas cordas. Leva também o prêmio de álbum mais "O Amor é Lindo" do ano!3 - Beirut - "The Rip Tide"
Ainda na categoria "bandinhas do coração que lançaram album novo esse ano" (vide Wilco) tem o terceiro álbum dos meninos do Beirut: coisa linda de Deus, viu?! Aprofundando a pesquisa sobre as sonoridades do leste europeu, a mini-orquestra-indie-folk com a condução e o vocal sublime de Zach Condon faz bonito de novo. Difícil destacar alguma faixa, pois o álbum na íntegra é impecável. Senta no tapete, abre um vinho branco e vai que vai! Aqui vai o clip de "Santa Fé", faixa que leva o nome da cidade natal do vocalista, no Novo México (desculpa, eu leio o google!).2 - Marcelo Jeneci - "Feito pra Acabar"
Lançado no final de 2010, o lindo álbum de Marcelo Jeneci emplacou bonito em 2011. Merecido! Depois diversas colaborações com artistas como Arnaldo Antunes, Chico César e José Miguel Wisnik, o paulista de 29 anos comemora com seu primeiro álbum, mais de 10 anos de estrada como músico profissional. O resultado é um album autoral, refinado, e com o vocal aveludado do moço na companhia constante (e ótima!) de Laura Lavieri, e é claro: o acordeon, peça fundamental de seus arranjos. Fica aí a minha preferidinha do álbum...1. The Decemberists - "The King is Dead"
O álbum novo dos meninos mais inspirados do indie-folk-norte-americano foi lançado em janeiro e não deu outra no meu fone de ouvido ao longo do ano. Das mais animadas como "All Arise" e "Rox in the Box" até as melódicas como "Dear Avery" e "Rise to Me" (abaixo no link em versão ao vivo), a banda colocou na roda o melhor álbum do ano, para o humilde dono desse blog. Violinos, acordeon, guitarras, baixo, teclados, e vocais impecáveis em uma mistura inspiradíssima nesse sexto album da banda, que traz um rock enraizado em uma das poucas tradições bonitas da terra do Tio Sam (desculpa, sou preconceituoso!). Álbum do ano! Lindo, lindo!MENÇÕES HONROSAS:
- I´m From Barcelona - "Forever Today" [Link para a faixa "Charlie Parker"]
- Gal Costa - "Recanto" [Link para a faixa "Autotune Autoerótico"]
- R.E.M - "Collapse Into Now" [Link para o videoclipe da canção "ÜBerlim"]
- Adele - "21" [Link para a faixa "Set Fire to the Rain"]
- Radiohead - "The King of Limbs" [Link para o álbum completo]
- Thaís Gulin - "ôôÔÔôôÔôÔ" [Link para a faixa: "Ali Sim Alice"]
- The Baltucz Band - "Café com Guitarra"[Link para a faixa "Junho"]
- Fleet Foxes – "Helplessness Blues" [Link para a faixa "Helplessness Blues"]
- The Drums - "Portamento" [Link para a faixa "Money"]
- Mapuche - "Sancity" [Link para a faixa "Lullaby"]
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Daniel Olivetto
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29 de dezembro de 2011
Os Melhores Filmes de 2011 - Última Parte
8 - X-Men : Primeira Classe (X-Men : First Class)
7 - Planeta dos Macacos – A Origem (Rise of the Planet of the Apes)
4 - A Pele que Habito (La Piel que Habito)
3 - Cisne Negro (Black Swan)
2 - Melancolia (Melancholia)
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Daniel Olivetto
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27 de dezembro de 2011
Os Melhores Filmes de 2011 - Parte 2
09- Cisne Negro
O filme de Darren Aronofski, que só estreou no Brasil em 2011, pretende ser complexo ao abordar a relação entre realidade, representação e esquizofrenia na figura da frágil bailarina obcecada por um papel. Por esse objetivo ela vai gradativamente rompendo seus limites físicos, morais e psicológicos, invadindo a linha da sanidade na busca por uma perfeição idealizada. Com um quê de Repulsa ao Sexo este poderia ser um incrível filme de terror, mas parece que o diretor resolveu evitar essa classificação, contendo-se na execução e evitando a vitória do medo sobre a metáfora. Talvez ele achasse o gênero redutor para a “obra de arte” que queria engendrar. E talvez essa indecisão de tom faça com que o filme perca impacto conforme ele amadurece na nossa memória, e hoje não seja tão incrível quanto foi quando saímos da sala de cinema. De qualquer forma, como um “suspense grotesco”, Cisne Negro ainda é um filme acima da média, criativo, forte e envolvente.
Puxando sardinha pra minha lata, já que eu estou nesse primeiro longa de Marcello Laffitte, sou obrigado a dizer que amei o filme. Corajoso, livre e divertido, Elvis e Madona carrega aquele clima delicioso e ousado que andou se perdendo no cinema brasileiro. Ainda mais que é filme brasileiro sem Globo Filmes, de orçamento apertado e muita paixão envolvida. Comédia com elementos de drama e policial, bem orquestrados pela direção segura de Laffitte e pela entrega total dos protagonistas. Além, é claro, do divertidíssimo elenco de apoio (ai, desculpa gente!). Sem intenção de reinventar o cinema, o filme usa o formato batido da comédia romântica pra comunicar-se de maneira genuína com o espectador. E a confusão das identidades sexuais, a graça da vida em Copacabana, o roteiro cheio de ritmo, a consagração com uma avalanche de prêmios mundo afora... Orgulho total.05 - Melancolia
Num tempo que a indústria americana se concentra em produzir filmes para adolescentes (ou para adultos que pensam como adolescentes) é um prazer raro encontrar um filme como esse no cinema do shopping. Adulto e triste, o filme de John Cameron Mitchell consegue a proeza de revelar a atriz sensível que andava se escondendo por trás do botox de Nicole Kidman. Da origem teatral do texto o diretor mantém a tensão baseada nas ações dos atores, economizando artifícios e se concentrando nos diálogos que conduzem a lenta evolução dramática dos personagens. Um filme sobre o luto, no qual, ao contrário do equivocado título concedido pela distribuidora brasileira, ninguém reencontra felicidade alguma.03- O Palhaço
O risco, a dúvida, a inadequação. Aquela sensação de não pertencer, de não ter nada e não ser ninguém. A vida em troca de um sorriso rasgado, ou de uma lágrima sincera. Cambalhotas em troca de pão. O Palhaço é sobre o destino inevitável de ser artista. O filme de Selton Mello caminha em seu compasso marcado, de encenação rigorosa mas leve, e segue diretamente rumo aos nossos corações. A história é delicada e o elenco é inusitado, escolhido com surpreendente inteligência. Uma história que nos religa com uma tradição ancestral e nos recorda que somos todos, lá no fundo, saltimbancos. E quando acaba a projeção resta-nos na memória a imagem de Paulo José, ator sublime, com seus olhos cheios de emoção e juventude nos dizendo o tempo todo que a arte transcende a materialidade do corpo físico. Bravo!02- A Pele que Habito
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24 de dezembro de 2011
Os Piores Filmes de 2011
9 - Sem Saída
3 - Caça às Bruxas
Menções Horrorosas:
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20 de dezembro de 2011
Os Melhores Filmes de 2011 - Parte 1
Intrigas familiares e contratempos cômicos fizeram desta comédia dramática uma das mais emocionantes e divertidas sessões de cinema do ano. Herdeira da melhor tradição dos filmes cômicos italianos, o filme extrapola os clichês do gênero com um sabor especial, diante da qualidade dos atores e do roteiro engenhoso e emocionante. Família e macarrão. A síntese da alma napolitana.
09. Itamar Assumpção: Daquele Instante em Diante
04. A pele que Habito.
02. Cópia Fiel
Mais do que uma alegoria sobre o fim do mundo, uma grande reflexão sobre a capacidade de nossa mente em criar realidades. Mais aterrorizante que sermos atingidos por um planeta, é o próprio extermínio gerado pela nossa capacidade de criar estados de alma letais. Lars Von Trier fez o filme mais impressionante do ano, com todo o rigor que lhe é peculiar e com o domínio que um grande cineasta tem dos recursos técnicos cinematográficos. Mais do que isso, soube manifestar de forma clara e interessante seu ponto de vista sobre a humanidade, apoiado no delicado trabalho de Kirsten Dunst, em contraste com a histeria crescente de Charlotte Gainsbourg.
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18 de outubro de 2011
O galã da novela não fuma mais
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4 de outubro de 2011
Leãozinho
Tá, achei um fiasco a Diana Krall cantando em português esses tempos, e em geral acho péssimo mesmo. Mas Beirut Caetaneando a gente tem que aceitar. Coisa fofa essa versão, gente!
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11 de setembro de 2011
"O Reencontro de R.E.M. e Patti Smith" ou "Ai que emoção, Amaury!"
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6 de setembro de 2011
Bandinhas do Coração
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31 de agosto de 2011
Tem ator saindo pelo ralo! Corram para as montanhas!
Quando eu era pequeno, e estava compenetrado em afazeres de criança, aqueles sempre urgentes e importantíssimos, como salvar um gatinho no telhado, descobrir como funciona uma batedeira, ou brigar por causa de um he-man, ou algo do gênero, vovó já dizia: “está fazendo arte, né menino?”... uma concepção meio católica de arte, esse negócio misterioso que foge dos padrões dos bons modos e da moral, um tipo de pensamento que deve ter ajudado (e muito) a criar essa ideia de que artista é tudo "porra-louca". Se naqueles tempos você perguntasse pra minha avó "o que é arte?", ela ia dizer que "arte é bagunça".
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29 de agosto de 2011
Manual para amores estéticos
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10 de janeiro de 2011
Madame Zaira e as Previsões para o Cinema em 2011
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3 de janeiro de 2011
Os Melhores Filmes vistos em 2010
por Renato Turnes,
ator, diretor, e neto do Bela Lugosi
Caros leitores, tão tradicional quanto o peru Sadia e o CD da Simone, minha lista fílmica de 2010 do blog do Dani está aí. Lembro que ela não se refere aos lançamentos do ano, mas a filmes que vi ou revi, de qualquer época, assistidos em qualquer suporte (cinema, DVD, TV, download ilegal...) e que de alguma forma foram experiências significativas pra mim, sob vários aspectos. Não existe ordem de relevância e nem critérios muito definidos. Divirtam-se e opinem.
GIALLO, Dario Argento, 2009

Por que quem não gosta de terror não gosta de cinema.
Sou fã de Dario Argento, o influente mestre do terror italiano. Seus filmes são exercícios de estilo, de cenários coloridos, impressionante uso de movimentos de câmera, música poderosa e atmosférica (nos 70 compostas e executadas pelos progressivos góticos Goblin) e roteiros que quase sempre priorizam a lenta construção da angústia.
Os constantes assassinatos são gráficos, e notáveis pelo apuro técnico e criatividade mórbida de sua execução. Em Argento as mortes são inusitadas, às vezes patéticas, invariavelmente violentas. Giallo, seu longa mais recente, é de 2009 e protagonizado por Adrien Brody. É um suspense policial que carrega a marca inconfundível de seu artesão.
O roteiro, meio esquizofrênico, apresenta poucas revelações, o que demonstra que Argento nunca foi, e continua não sendo, um autor do estilo “redondinho”. Ao contrário a sensação de voyeurismo sádico que a obra provoca - e isso é característico do diretor - prende a atenção por si mesma, dispensando surpresas excessivamente narrativas e concentrando o suspense nas ações.
Os traumas de infância, mostrados a partir de flashbacks lindamente fotografados, são a base para a construção das motivações dos personagens, herói e vilão, ligados de alguma forma pelas dores do passado. O final é no mínimo irônico, mantendo a tensão pela via oposta a do clichê.
Interessante que giallo (amarelo, em italiano) se refere ao subgênero cinematográfico do qual Argento foi o mais alto mestre. Popular nos 70 e 80, o giallo se caracteriza pela perseguição a um serial-killer, assassino de mulheres, com mortes brutais antecedidas por perseguição, violência estetizada e algum nu. Geralmente o assassino só é descoberto no final e durante o filme vemos suas luvas pretas de couro apertando o pescoço das vítimas, ou outra solução semelhante.
Giallo, o subgênero, influenciou definitivamente o terror moderno. Giallo, o longa, é uma espécie de revisão tardia do movimento, realizada por seu mais importante autor.
OS SETE GATINHOS, Neville D’Almeida, 1980

Pela volta do peitinho no cinema nacional.
Ao adaptar a tragédia carioca de Nelson Rodrigues, Neville D’Almeida toca numa espécie de pornochanchada sofisticada, com atores excelentes e diálogos absolutamente memoráveis: Quem foi que desenhou caralhinhos voadores na parede do banheiro? (que não existe na peça original – lembre-se que Seu Nelson não escrevia palavrões) ou Me chama de contínuo! estão entre as falas incríveis dessa pérola nacional.
Destaque pra Regina Casé – engraçada, espontânea e magrela – e pro malandro carioca perfeito que faz o Fagundão. Adoro Telma Reston como a mãe sexualmente frustrada. Lima Duarte também dá show como o pai de família que ainda crê na pureza da filha caçula, vê sua fantasia ruir quando ela é expulsa do colégio por matar a pauladas uma gata prenha e acaba fazendo da sua casa um absurdamente amoral bordel de filhas.
O filme usa bem as seqüências de tom cômico, com cenas mais debochadas e soltas. Mas pesa a mão quando tem que pesar, criando imagens fortes e simbólicas em encenação rigorosa. E o roteiro, bem apegado à peça, se encarrega de encaminhar os personagens pro fundo do poço familiar, como era de se esperar.
Durante muito tempo, na minha cabeça, Os Sete Gatinhos era tudo de divertido que o cinema brasileiro poderia oferecer: safadeza, inventividade, graça, ator espontâneo, som meio esquisito. Hoje, com apuro técnico, preparador de atores, lei de incentivo e caretice pudica, eu tenho saudades da boca do lixo que não vivi.
ILHA DO MEDO, Martin Scorsese, 2010.

Porque é o que de melhor o cinema americano pode criar.
Acho ridículas as viúvas de Glauber, essas que só acham bonito filme que vem de país sem água potável, bradarem em alto e bom som que “não gostam de cinema americano”.
Somente uma cultura cinematográfica esplendorosa poderia engendrar um criador como Martin Scorsese. Um autor que mergulha em suas obsessões, banha-se em suas referências e dá a luz um filme profundo sem perder de vista a comunicação efetiva com o público. Insistentemente americano, nas referências ao cinema B de suspense dos anos 50, na decupagem precisa e emocional, no uso espetaculoso da música, na composição obscura dos personagens. Scorsese é um brilhante artista de sua cultura.
Em Ilha do Medo estão as obsessões da culpa e redenção características do melhor cinema feito pelo diretor. E numa encenação poderosa, puro espetáculo que se liga à força mítica da natureza como analogia para as tempestades de uma mente perturbada. Saí da sessão em estado de puro regozijo cinemático. Sinto-me feliz por acreditar em Di Caprio como adulto pela primeira vez e voltar a amar Scorsese e os grandes cineastas ianques, esses desgraçados dominadores do mundo.
ZUMBILÂNDIA, Ruben Fleischer, 2009.

Só porque é cool.
Pra mim esse terrir sem nenhuma pretensão foi a comédia do ano. Os caras pegam a mitologia zumbílica inventada por Romero e fazem um filme de aventuras engraçado, sarcástico e adorável, que já nasce cult.
A trama é simples: num mundo meio pós-apocalíptico dominado por zumbis um grupo de sobreviventes tenta não ter seus cérebros comidos por mortos-vivos desgraçados assassinos do inferno. O genial é como o roteiro tira onda de si mesmo, do gênero, da indústria do cinema e do mundo ao redor com precisão, timing e cara-de-pau absurda.
Woody Harrelson (que é cool!) faz o brutamontes que mata zumbis como mosquitos e só quer comer um bolinho em paz. Jesse Eisenberg (de A Rede Social, que agora é super cool) é o cagão necessário para viver uma jornada do herói. Tem ainda Abigail Breslin (que já era cool criancinha em Pequena Miss Sunshine).
Mas o mais cool de todos os cools do universo dos atores cools é ele: Bill Murray. Esse é o ator mais engraçado do mundo e faz toda a diferença em qualquer set que pise e no de Zumbilândia ele simplesmente arrebenta como... Bill Murray.
Corra pra ver, antes que o mundo acabe.
A SINGLE MAN, Tom Ford, 2009.

Por que filme não tem orientação sexual, quem tem é gente.
Eu amo os ternos de Tom Ford, acho o cara lindo, chic e talentoso. Mas dentro da minha mente pobre temia que o filme fosse um desfile de modas. Meu queixo e minhas barreiras ignorantes caíram durante a sessão de A Single Man (me recuso a citar o horroroso nome em português). Obviamente existe o bom gosto geral na direção de arte vintage, que poderia ser fútil não estivesse rigorosamente de acordo com o universo do protagonista e sua vida secreta de aparências. Tudo é lindo, limpo e organizado para esconder a bagunça das vidas interiores que se revelam na tela.
Emocionante a atuação de Colin Firth, e a cena em que ele recebe a notícia da morte do parceiro é de um virtuosismo de contenção e sofrimento que dói como faca em quem vê. Juliane Moore faz o contraponto perfeito como a amiga apaixonada e infeliz. Na formidável sequência em que os dois conversam, dançam, falam-se verdades intoleráveis, brigam e se reconciliam, os atores interpretam a síntese perfeita do que é a amizade.
Tom Ford demonstra nesse primeiro filme uma sensibilidade tocante para a criação da imagem, o ofício delicado da composição visual e da direção de arte, além de uma irresistível dedicação aos sentimentos dos seus personagens e ao trabalho de seus atores. A Single Man revela o talento surpreendente de um esteta.
CANIBAL HOLOCAUSTO, Ruggero Deodatto, 1980.
Por que um filme pode ser perigoso.
“- É absurdo! Como podem chegar a isso? Eu me sinto aviltado! Aviltado!” Só ouvir o meu flattmate e parceiro de incursões cinematográficas esquisitas Malcon Bauer bradar essas palavras indignadas, com seus lindos olhos verdes injetados, a pele alva rosada de vergonha, suor escorrendo pelas têmporas arianas, depois da sessão doméstica de Canibal Holocausto, já vale a experiência e inclusão desse filme na lista.
E pior que é isso mesmo. Aviltante, maldito, absurdo, imoral, louco, criminoso... de tudo já foi chamado esse filme mitológico, apelativo, proibido, obsceno e demoníaco que a gente comprou por 9,99 nas Americanas.
Filmado na Amazônia, o filme conta a história de quatro documentaristas sensacionalistas, que gostam de molestar povos selvagens e embrenham-se na selva para filmar indígenas canibais. Dois meses mais tarde, depois que o grupo não retorna um famoso antropólogo viaja em uma missão de resgate para encontrá-los. Ele consegue recuperar as latas de filme perdidas, que revelam o destino tétrico dos cineastas desaparecidos. Parece com A Bruxa de Blair e congêneres contemporâneos? Sim...e aí está o lado visionário da polêmica.
A excelente direção de Ruggero Deodatto (porque italianos fazem os terrores mais bizarros?) mescla a linguagem ficcional com a documental de forma perfeitamente fluente e crível, trinta anos antes da “inovação” de Bruxa de Blair. O que impressiona acima de tudo é a perversão dos personagens e a absoluta verossimilhança das poderosas cenas ritualísticas, que embrulham o estômago e a moral.
No fundo um filme sobre a maldade do homem branco, que fala disso através de doses pérfidas de canibalismo, morte ao vivo de animais silvestres, empalamentos, sexo sujo em ambientes fétidos (Gérson adora esse filme!), apuro técnico e a perturbadora mise-en-scene realista que fizeram a fama desse filme totalmente demente.
Desaconselhável para gestantes, cardíacos, bichinhas sensíveis e vegans.
PINK FLAMINGOS, John Waters, 1972.
Por Divine.
John Waters, o mestre underground da contracultura americana, tem aqui talvez seu vilipendiante apogeu criativo. O filme classificado pelo próprio como comédia/horror de baixo orçamento conta as aventuras de Divine e sua família disfuncional (as “pessoas mais sórdidas do mundo”) contra um casal de modernos marchands malvados da alta roda. Os vilões cometem atos sinistros como aprisionar e engravidar virgens e vender seus bebês para casais de lésbicas descoladas ou submeter a bela Divine a um tratamento com ácido que desfigura seu rosto e a transforma em pura “arte contemporânea”.
O filme é uma sucessão de cenas entre a escatologia e o deboche, embaladas por uma trilha sonora impagável. Na mais famosa delas, Divine desfila por Nova Iorque, em uma espécie de intervenção urbana, causando geral nohappening, e de repente, come cocô. (hihihihi, eu escrevi cocô, hihihi).
Ah Divine! Como não se apaixonar por essa diva esfuziante, musa inconteste, deusa udigrudi, toda linda, toda gorda, toda queer, toda descaradamente homem/mulher, a nos confundir neurônios e hormônios. Ela é a primeira e única rainha andrógina e híbrida, perigosa e subversiva, muito antes de Drag Queen virar essa coisa inócua de animar festinha infantil.
Numa cena de torcer nossos miolos ela é estuprada... por ela mesma, em sua versão homem. Oi? É muita metáfora gente.
DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA, Sidney Lumet, 1957.
Por que teatro e cinema podem dialogar sem ficar chato.
Um jovem porto-riquenho é acusado de ter matado o próprio pai e vai a julgamento. Doze jurados se reúnem para decidir a sentença, com a orientação de que o réu deve ser considerado inocente até que se vote o contrário, por unanimidade. Onze dos jurados, cada um com sua convicção, votam pela condenação. O jurado número 8 é o único que acredita na inocência do jovem e tenta convencer os outros a repensarem a sentença.
Experiência cinematográfica excitante pelos limites que a direção de Sidney Lumet coloca para a encenação, claramente definidos pela origem teatral do argumento: apenas 3 dos 93 minutos do filme acontecem fora da sala onde o júri está reunido, numa tour de force concentrada, sintética e completamente sustentada na performance dos atores.
E olha que estou falando de atores míticos, monstros como Henry Fonda e Martin Balsam, que atuam como esfinges de poder magnético.
Aos poucos, enquanto o número 8 tenta convencer os colegas de que as provas são insuficientes para condenar o jovem, as personalidades de cada jurado vêm à tona, estabelecendo um jogo arrepiante de revelações, medos, preconceitos e competições. É um retrato cruel e milimétrico da sociedade, visto pelos olhos do artesão impecável que foi Lumet.
Vale a pena olhar também a refilmagem para TV dos anos 90, com Jack Lemmon, que guarda as mesmas características do filme original, com ótimos resultados.
PIRANHA 3D, Alexandre Aja, 2010.
Por que às vezes só o que a gente quer é se divertir.
Eu não espero desse boom de filmes em 3D nada mais que parque de diversões. E na verdade isso é muito cinema.
Lembram como tudo começou? Eram projeções de coisas exóticas em feiras populares, no meio do engolidor de facas e da Monga, a mulher macaca. As pessoas queriam apenas assombrar-se, sentir medo do trem chegando, acreditar que existia gente negra em algum lugar de um continente distante. A origem do cinema foi assim, um novo brinquedo da feira, mágico e assombroso.
A tecnologia 3D de alguma forma resgata esse impulso popularesco e freak dos primórdios. Não espero mesmo ver um drama bergmaniano em 3D, mas que tal um pênis decepado, engolido e depois regurgitado por uma piranha monstruosa, num primeiro plano tão bem feito que parece que dá pra pegar (ui que nojo)?
Piranha 3D é assim, entretenimento puro, raso, trash (com dinheiro), engraçado, nojento, sexy, com peitinho pra todo lado, sem a mínima preocupação de ser levado a sério.
Os adeptos da cabecice que me perdoem, mas esse foi o 3D do ano, infinitamente mais legal que a Alice de Tim Burton. Simplesmente uma delícia.
FACES, John Cassavetes, 1968.
Porque eu amo os atores.
John Cassavetes trabalhava apenas com seus amigos, com pouquíssimos recursos e estabelecia com seus atores uma cumplicidade absoluta. Partia de um roteiro esquemático e inacabado e deixava os atores desenvolverem diálogos e improvisos, concedendo a eles o status de parceiros-criadores. Filmava com muitas câmeras tentando capturar a espontaneidade do momento em que a ação era criada, evitando repetições mecanizadas. A aparência de improviso das cenas é na verdade fruto de ensaios intensos e de uma delicada experiência no universo pessoal de cada ator/personagem.
Faces pode ser considerado a síntese desse esquema marginal de fazer cinema. É a história da crise em que mergulha a vida de um casal formado por um homem mais velho e sua jovem esposa. Por conta do estranhamento entre eles, ambos buscam outros relacionamentos. Ele com a prostituta vivida pela deusa Gena Rowlands, musa do diretor. Ela, numa noitada com amigas num bar, conhece um garoto de programa. Não há flashbacks para explicar o passado de ninguém, não há estudos motivacionais, não há discursos morais, não há nem propriamente uma fábula. Há apenas a câmera entrando cada vez mais fundo na alma dos atores. Em closes estupendos eles se revelam tão sinceros e entregues, imperfeitos e humanos.
Em tempos de intermediários entre direção e elenco, seria bom se os cineastas brasileiros voltassem seus olhos para Cassavetes, um artista que em seus filmes conseguiu extrair da sua relação apaixonada com seus atores um ritmo que é a própria vida.
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Daniel Olivetto
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