26 de janeiro de 2009
26 de novembro de 2008
A lucidez é cinza...
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! [...]"
Fernando Pessoa
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Daniel Olivetto
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8:36 AM
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16 de novembro de 2008
Coisas que eu roubo por aí
h a j a
o que houver
a j a.
j á"
Thiago Florêncio [http://oroedordeventanias.blogspot.com]
A foto eu roubei hoje na Praia Vermelha, durante as gravações
[a melhor fala sobre um dia bucólico]
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Daniel Olivetto
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7:16 PM
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5 de novembro de 2008
Pra guardar numa caixinha
[Foto da Aninha Lubitz, imagem que já andou por aqui outrora...]
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1:47 PM
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22 de setembro de 2008
Poesia é o futuro!
"Entrei numa loja, estava em liquidação.
Queima de estoque, fogão na promoção.
Escolhi da marca dako porque dako éh bom!
Dako éh bom!
Dako éh bom!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!! (2x)
Calma minha gente, é só a marca do fogão!!
Dako éh bom!
Entrei numa loja, estava em liquidação.
Queima de estoque, fogão na promoção.
Escolhi da marca dako porque dako éh bom!
Dako éh bom!
Dako éh bom!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!! (2x)
Calma minha gente, é só a marca do fogão!!
Dako éh bom!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!!
Calma minha gente, é só a marca do fogão!!"
BARRACO, Tati Quebra. Fogão Dako. 2004
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3:13 PM
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1 de setembro de 2008
Vamos passear na avenida
"vamos passear na avenida
atravessar o deserto dessa multidão
que passa entre as vias expressas
na pressa do tempo perdido
vamos passear na avenida
me dê sua mão e seu braço quebrado
vamos passear abraçados
atravessar as faixas
os olhares em trânsito
atravessar o tráfego das máquinas bufantes
vamos passear na avenida
entre os corpos ausentes
enquanto procuro tua imagem
no fundo do corredor
vamos passear na avenida
atravessar a fantasmagoria dos passos apressados
vamos atravessar os corpos que não mais condizem
uns com os outros
vamos atravessar a avenida
só pra ver a ressureição dos corpos
na densa floresta do centro da cidade
vamos passear
eu te trarei o pólen que os insetos preparam
como mensageiros de outras espécies
vamos passear na avenida"
Thiago Florêncio,
http://oroedordeventanias.blogspot.com/
[uma das coisas mais lindas que eu encontrei pela net...]
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4:08 PM
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19 de agosto de 2008
Instruções para chorar
"Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este fim, pois o choro acaba no momento em que a gente assoa energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As criançãs chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos."
Cortázar
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6:56 PM
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19 de janeiro de 2008
Sobre Minhocas e Afagos
Alzira
Veja “Liloca, a minhoca” em, www.rosetaseespinhos.blogspot.com, um presente (talvez) involuntário do Greg.
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9:55 PM
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16 de dezembro de 2007
Apareça
Poema lindo do corno do Enzo Potel...
Apareça.
Por favor, apareça.
Antes que as migalhas
desta aberração
que vejo no espelho
torne-se mais um esboço
do passado.
Antes que eu nasça
como um vendedor de caldo de cana,
um mestre argentino de tai chi chuan,
um policial, um papagaio,
uma cantora,
um indiano que rouba água.
Antes que o tempo
te traga de novo
sem o aviso de que teu toque
abre caminhos de dor e insapiência.
Surja na simplicidade
de trinta minutos,
não daqui a três mil anos.
Traga as malas no carro
para ficar
para não me dar
perfume à perfídia
que é dizer
até a próxima
encarnação.
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Daniel Olivetto
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8:40 AM
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27 de novembro de 2007
Manual de empacotamento para principiantes
Embale com cuidado os livros que leu nesta última estada, e embale com maior cuidado ainda os que já muitas vezes foram encaixotados mas nunca folheados... eles devem guardar segredos que você não quis conhecer. Embale os retratos velhos, os novos, os rasgados, os que tem furo de percevejos, os retratos que mancharam na porta da geladeira, os retratos escondidos.
Embale o pijama que ficou de lembrança e que agora você vai ter que levar. Guarde entre os lençóis alguns abraços matinais com cheiro de chuva das seis e quinze.
Encaixote os bibelôs que fizeram tanta alegria besta, e guarde com eles a simetria da casa, os vidros embaçados, os sons noturnos, as conversas de almoço, as festas não planejadas, as rolhas de vinhos com escritos de datas especiais, os registros de ultimas invenções gastronômicas... Derrame algumas lágrimas no quarto vazio [só depois tire a cortina]. Enrole em jornais os afagos que você não quiser esquecer [jornais garantirão a segurança de objetos frágeis].
Doe os LPs e os VHSs [os tempos mudaram e você não percebeu]. Passe adiante roupas com cheiros especiais... elas servirão melhor a outros... Passe fita de polipropileno pro que não for desencaixotar tão cedo. Ande uma ultima vez de meias por toda a casa vazia. Fume um cigarro na sala, já que ali nunca foi lugar pra isso. As ultimas lágrimas devem ser dispostas sobre a planta adotiva já que você esqueceu de regá-la ultimamente. Calcule o tamanho da árvore dos fundos, compare as recordações com medidas exatas. Memorize o que deixou pra trás pelas marcas que o sol desenhou nas paredes. Tudo está ali ainda.
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6:34 PM
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23 de novembro de 2007
A cada segundo
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6:24 PM
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3 de novembro de 2007
Aos que vieram antes nós:
Por que sentimos tanta saudade?
Por que não se escolhe quem ama [assim, bem simples] ?
Por que não esculpimos o mundo apenas de objetos e certezas?
Ele olhava à volta e não queria mais entender nada. Foco no teto. Silêncio
- Há quanto tempo o senhor sente essas coisas?
- Não sei. Eu queria não sentir nada. Tem jeito, doutor?
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Daniel Olivetto
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9:04 PM
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27 de setembro de 2007
Cedotardar
Tom Zé
Tenho no peito tanto medo,
É cedo
Minha mocidade arde,
É tarde
Se tens bom-senso ou juízo,
Eu piso
Se a sensatez você prefere,
Me fere
Vem aplacar esta loucura,
Ou cura
Faz deste momento terno,
Eterno
Quando o destino for tristonho,
Um sonho
Quando a sorte for madrasta,
Afasta
Não, não é isto que eu sinto,
Eu minto
Acende essa loucura
Sem cura
Me arrebata com um gesto
Do resto
Não fale, amor, não argumente
Mente
Seja do peito que me dói,
Herói
Se o seu olhar você me nega
Me cega
Deixa que eu aja como louco,
Que é pouco
No mais horroroso castigo,
Te sigo
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Daniel Olivetto
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26 de setembro de 2007
FELIZ ANIVERSÁRIO
— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.
— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca", pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os e ria.
— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.
— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.
— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra, "a proteger uma criança” ...
— Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.
— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.
— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada...
— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.
— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou... Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.
— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.
— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com seu pai:
— Dê lembranças a titia! gritou.
— Sim, sim!
— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.
— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia e refluia no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.
— "Ela" foi?
— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.
Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança voavam...
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança ainda é inocente!" Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina", pensou com cólera, "a criança é inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.
"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.
— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.
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Daniel Olivetto
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25 de agosto de 2007
Pro dia nascer feliz...
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20 de agosto de 2007
Três cigarros e uma prosa bipolar
(Então ele bateu os sapatos, não limpou as soleiras, não virou o disco, e viu-se rodeado dos afagos que vinham de lugar nenhum)
Este dia não lhe deu a doutrina salvadora. Este lugar não trouxe um abraço esperado, tampouco um soluço desembestado de quem anda torto. Ele se viu pura poesia. Ele quis escrever um poema. E tentou dormir com macacos no sótão, com talheres no teto, com risadas no porão. E quis escrever um poema. E preparou um chá, e andou pela casa, e esmigalhou nozes. E quis escrever um poema.
A moça desnuda do sétimo andar agonizava na janela. Ele gritou (oco) contra vidro (fosco) do prédio: vou escrever qualquer merda hoje!!! Está me ouvindo?!
(silêncio noturno, sequer um cachorro se pronunciava)
Qualquer merda - disse o ator - qualquer merda!
[foto da Samara Zukoski, que tá cada vez melhor na fita]
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19 de agosto de 2007
Céu de azul e cinza
Fim de semana lindo e doido (doido porque foi lindo, lindo porque foi doido)
Oficina belíssima do espetáculo novo (veja algumas fotos em www.oespacoemaberto.blogspot.com)
Muitas unhas roídas!
Muitas imagens novas na cabeça!
Muitas olhadas para o espaço interno!
E também muitos afetos doidos ( inspiradores)!
Harry, você não vale mesmo um real (e é das pessoas deste naipe que eu gosto)
"às vezes (e isso eu confesso) eu queria ser um copo descartável, um objeto vulgar, o banal, o imprestável...
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15 de agosto de 2007
Coisas que eu não entendo...
“Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber têm existências paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo o contato com outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador. Um dia, estando a cuidar destas cousas, considerei que para o fim de alumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos anos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existência de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo efeito, poupando tais trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora”. Machado de Assis, "O Segredo do Banzo"
(Foto roubada do Flickr, do Lucas Viggiani)
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13 de agosto de 2007
"Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas podem um dia milagrar flores
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violeta)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus!
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.) "
Manoel de Barros Livro sobre nada
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