25 de fevereiro de 2006

Amor de Macho


Ang Lee é um homem que sabe da arte de viver (este é inclusive o nome de um de seus filmes). Dono de um olhar perspicaz e de uma inteligência só sua, este taiwanês já realizou belíssimos filmes que nos mostram sua cultura de forma deliciosa. Suas saídas de Taiwan, no entanto, renderam filmes magníficos como "Razão e Sensibilidade" (1995) ou "Tempestade de Gelo" (1996), filmes em que Lee exercita um olhar oriental sobre histórias do ocidente. Em "Razão..."ele equilibra os dois sentimentos do título numa trama novelesca (muito bem escrita) que se abrilhanta por seu olhar incomum, e pela precisa direção de atores (marca registrada desse sujeito). Lee lança sua mirada oriental sobre a mulher da era vitoriana e cria um filme ácido e apaixonante. Já em "Tempestade de Gelo" põe a mão áspera sobre uma trama familiar iquietante. Como apagar da memória a cena em que Christina Richi e Elijah Wood transam usando máscaras de Nixon? É a sexualidade posta à prova numa América à beira do colapso... à beira da tempestade.

Essa alquimia de Lee pode ser conferida mais uma vez em "O Segredo de Brokeback Mountain", filme taxado de um "...E o Vento Levou" gay ... comentário que todos deveriam esquecer. O filme é muito mais que esse adjetivo que não passa de um rótulo besta. O filme narra o amor secreto entre dois cowboys durante vinte anos numa sociedade mais conservadora do que a que já conhecemos. A metáfora já de cara instigante: o sentimento sublime nos cowboys brutais num mundo interiorano (onde esse amor é muito mais que impossível). Ang Lee combina magistralmente estes dois elementos: o sublime e o brutal num filme que escapa (na maior parte do tempo) dos clichês. O roteiro vai melhor de argumento que de diálogo em si. Alguns diálogos chegam a ser meio xulos de tão vazios. Vazios de sentido, pois boa parte das cenas não precisam de uma palavra. É mais uma vez a direção de Lee que salta aos olhos, em especial a direção de atores. Lee é mestre não só em extrair boas atuações mas em achar a melhor respiração da cena. Cada ângulo é preciosamente humano. O que sobra em "Brokeback..." é de fato o roteiro que cisma em explicar mais do que o diretor e os atores já dão conta de fazer. Não deixa de ser uma bela história, e muito bem contada.

Belas atuações, em especial a de Heath Ledger em performance contida e instigante. Edição e Fotografia vigorosas. E, que trilha sonora, hein??!! E Ang Lee que é sempre apaixonante: enche de vida cada segundo desse filme. Não consegue sanar tudo neste roteiro irregular, mas nos oferece um filme recheadode vida e de sua alquimia pouco comum. Ao nos exibir esse amor de macho ele nos mostra o quanto não cabemos nesse mundo tão pequeno, e de como não sabemos das inúmeras faces que um mesmo sentimento pode ter. Saí do cinema me sentindo burro. Porque o dicionário diz que o amor é "isso" ou "aquilo". Tem que ser muito macho nesse mundo pequeno, preconceituoso, quadrado, e cheio de rótulos bestas. Viva Ang Lee!

31 de janeiro de 2006

Who Let the Dogs Out??


Uma das mais importantes teorias artísticas do século XX é com certeza a do Teatro Épico, formulada pelo alemão Bertolt Brecht, ao longo do seu trabalho como escritor e encenador. Numa agonia infinita por um Teatro não ilusionista, um Teatro que tirasse o público de seu sono alienador, Brecht parece pôr no centro de sua poética a idéia de distanciamento. O efeito de distanciamento era empregado, grosso modo, para que o público não se iludisse pela cena: uma vez que estivesse arrebatado emocionalmente pela representação não poderia pensar a obra criticamente, avaliar as posições sociais e situações representadas.

Não se pode negar, no entanto, que o distanciamento em si já existia antes de Brecht. O que ele fez foi dar forma a esta idéia a partir de amplo trabalho em que transformou o que chamamos hoje de distanciamento num conceito mais determinado e referenciado por uma prática concisa. Os princípios do Teatro Épico foram se inserindo pouco a pouco nas proposições de outros artistas desde o trabalho Brecht. E não foi diferente no cinema.
Em Dogville, vemos o distanciamento como alimento dessa gana por um cinema de maior provocação. A ousada concepção de Lars Von Trier aqui se difere radicalmente de seus filmes anteriores ao adotar uma atmosfera mais teatral. Se em Ondas do Destino ou Dançando no Escuro ele provocava as identificações mais que viscerais na platéia, em Dogville, Von Trier nos ataca pela via mais cerebral. Ele nos coloca como espectadores de uma curiosa cidade de mentira e nos faz testemunhar esta cidade com olhos analisadores. Tudo isto se torna possível pelo fato de Von Trier usar e abusar dos recursos de distanciamento. Ele mesmo declara a inspiração nas montagens do Berliner Ensamble que assistira quando pequeno. A opção por um cenário sem paredes, por exemplo, que simula uma planta baixa e insere apenas os objetos ou mobílias primordiais à cena, nos incita a uma percepção narrativa dos acontecimentos. Eles não sucedem ali numa linha dramática comum, e sim, ficam sugeridos ao nosso imaginário. O distanciamento aqui surge como ferramenta essencial na criação de um filme de provocação cerebral, quase por completo. As reações a cada cena nos surgem como descargas cerebrais. Quase nunca uma reação puramente íntima, no sentido visceral, nunca uma reação de cega identificação. Quase nunca uma sensação de espera por uma resolução.

Dogville avança na linha de frente de um cinema amplamente contestador, e seu mentor, o Sr. Von Trier, dá forma a um cinema (ainda mais) épico, quase como se criasse um gênero, remexendo no teatro de Brecht pra cutucar também a ferida de um cinema que, segundo dizem, está em vias de acabar.
Von Trier solta os cachorros ao nos provocar o olhar pra uma situação onde somos, ao mesmo tempo, testemunhas e cúmplices. Somos colocados na platéia de uma cidade que praticamente não está ali. Dogville é uma mentira. É a metáfora de uma cidade familiar e seus cachorros, e Von Trier faz questão de mostrar, quadro a quadro, que tudo não passa de representação. É como se nos colocasse num tabuleiro de xadrez, escolhendo qual peça somos em cada momento e como podemos manipular certos acontecimentos a nossa volta pelo simples fato de pensarmos neles. No tabuleiro de Dogville, podemos escolher se somos a rainha, o peão, o cavalo, o bispo ... ou cachorro.
___________________________________________-
Obs: Esse texto é um trecho de uma resenha escrita pra Disciplina de Interpretação III, do CEART/UDESC, discplina em que estivemos estudando a interpretação a-la-Brecht.

29 de janeiro de 2006

Não Basta ser Pai...


Woody Allen é o clown dos clowns, com o perdão da palavra. Como podemos acreditar sempre em seus personagens, personas que pouco se diferenciam de sua composição real? A cada filme, Allen é um personagem que não tem outro corpo, nem outra voz. Tampouco se distancia do que parece ser a sua pessoa. A idéia de um não-personagem, de um clown, ou, seja lá o que chamemos no teatro, tem seu equivalente cinematográfico em Woody Allen.

Mas ele é antes de qualquer coisa um dos grandes diretores da contemporaneidade. Sua extensa filmografia inclui clássicos e cults como Bananas (1971), Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar (1972), A Última Noite de Boris Grushenko (1975), Neurótico, Noiva Nervosa (1977), A Rosa Púrpura do Cairo (1985), Hannah e suas Irmãs (1986), e mais recentemente Tiros na Broadway (1994), Todos dizem eu te amo (1996) e Desconstruindo Harry (1997).
Em Poderosa Afrodite (1994), vemos Allen esbanjando inteligência no melhor de se humor. Na trama, ele é um escritor que resolve conhecer a mãe biológica de seu filho adotivo. A imagem que ele procura não é exatamente compatível com a imagem real: a prostituta e atriz pornô Linda Ash (Mira Sorvino, na impagável performance que a tirou do anonimato), e passa a querer dar a ela uma vida mais digna, arquitetando encontros românticos para a moça, entre outras empreitadas patéticas. Ele tenta lhe arrumar um bom moço (um boxeador) e chega a inventar uma vida perfeita para a Linda. Mas como transformar a deusa da fertilidade numa dona de casa? Que fazer com seu cinturão mágico que seduz mortais e imortais?

A utilização dos mitos gregos dá o charme desta comédia de Allen. Como não comentar a utilização do referencial de uma tragédia como Édipo, para tratar dos dilemas da paternidade nos dias de hoje? O que não faz um pai para construir uma história perfeita para seu filho? Ao remendar a vida da progenitora de seu herdeiro, o escritor lança mão da catástrofe de sua vida atual, um casamento diante de uma crise que ele parece nem perceber.

É basicamente na costura da história e nos referenciais mitológicos e trágicos que Allen consegue ser mais feliz. Ao inserir o coro grego como comentarista das cenas, o diretor não poupa farpa: inteligência e non sense em seu melhor estado (como de hábito).

No entanto, Allen parece ainda mais sábio quando pensamos no porque de seu clown. É impressionante a empatia de seus personagens, o que confere não somente a graça de seus filmes, mas o tom de humanidade. É essa humanidade que não deixa seus filmes caírem na vala comum das comédias americanas, falando aqui de forma geral. É no tom patético de suas personagens que ele traz à tona a humanidade das suas bizarrices. Allen recorre aqui ao mitológico, mas não deixa de falar de gente comum. Não parece haver nada mais catártico* (com o perdão da palavra) e trágico que isso.
_________________________________________________
* De catarse, que tem a ver, grosso modo, (Aristóteles que me perdõe) com a identificação espectador-tragédia.
Obs: Este texto foi originalmente escrito para a disciplina de Estética Teatral I

28 de janeiro de 2006

Os Melhores de 2005


Todo mundo reclama que eu não atualizo isso aqui, então vai um primeiro de 2006:

Agora Sim ... os 10 melhores filmes de 2005, ou melhor... que eu vi em 2005! Não tá em ordem de importância, ok?

CLOSER - PERTO DEMAIS, de Mike Nichols
(Estados Unidos / Reino Unido)

e ANTES DO PÔR DO SOL, de Richard Linklater
(França / Estados Unidos)

... dois romances pra lá de maduros que não poupam nos diálogos e atuações. Enfim o cinema volta a apostar nos romances sobre adultos, mas para adultos.

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
de Michel Gondry (Estados Unidos)

CASA VAZIA, de Kim Ki-Duk (Coréia do Sul)

MANDERLAY, de Lars Von Trier
(Estados Unidos)

... porque o cinema não pára de reinventar, seja pela busca de outras estéticas, ou pela reafirmação de uma poética própria, ou mesmo pela simples inquietação colocada em cena de modos menos tradicionais ... esses três filmes são exemplos disso.

LES CHORISTES - A VOZ DO CORAÇÃO
de Christophe Barratier (França)
e
VALENTIM de Alejandro Agresti (Argentina)

... porque ainda há espaço para os filmes tradicionais, emocionantes, mas, que não precisam apelar para as lágrimas fáceis!

O OUTRO LADO DA RUA de Marcos Bernstein (Brasil)
e
A VIDA DE DAVID GALE de Alan Parker (Estados Unidos)

... porque ser híbrido no gênero é muito inquietante. E porque reverter as expectativas de quem assiste um filme, é tarefa de quem sabe fazer cinema!

A NOIVA CADÁVER de Tim Burton (Estados Unidos)
... porque Tim Burton é o cara, e pronto!

17 de setembro de 2005

Decífra-me ou Devoro-te*


Nada mais delicioso pra qualquer cinéfilo que poder observar na trajetória de um diretor a maneira como ele remodela sua prática, intensifica suas buscas e amadurece seu trabalho trazendo ao público filmes cada vez mais despojados. Melhor exemplo disso que cineastas como Alan Parker não há. Diretor britânico conhecido no Brasil por O Expresso da Meia Noite, Mississipi em Chamas ou mais recentemente pelo massacrado Evita, Parker começou a carreira nos documentários na década de 60 do século passado, e traz na bagagem cenas memoráveis, como a do banho de sangue de Mickey Rourke e Lisa Bonet em Coração Satânico, a violência física de O Expresso da Meia Noite ou mesmo as estripulias salutares de Antony Hopkins no menos festejado O Fantástico Mundo do Dr. Kellogg. Parker chega aos anos 2000 em excelente forma com A Vida de David Gale.
Primeiro você pensa: “A Vida de David Gale”? Pelo nome soa à atração do Supercine, não? Será mais uma história verídica de alguém que luta contra o câncer? Depois você pensa: dirigido por Alan Parker? Estaria ele passando por uma fase ruim? Realizando alguns filmecos comercialóides para recauchutar sua conta bancária? Ora, o criador de obras primas como as citadas acima não poderia estar passando por esses maus bocados.

Em A Vida de David Gale, pelo contrário, Parker dá sinais de grande integridade e saúde criativa. Neste filme de 2003 o diretor exorciza as famigeradas discussões sobre pena de morte que rondam nossos primos do norte numa abordagem ainda mais cruel. Revelar aqui essa crueldade seria acabar com o deleite dos que vierem a assistir este filme, então tentarei não fazê-lo.

No filme, David Gale (Kevin Spacey, sempre formidável) é um respeitado professor de Filosofia, que vive seus últimos dias numa detenção do Texas. Poucos dias antes de sua execução, David pede a presença da repórter Bitsey Bloom (Kate Winslet, em atuação um tanto chorosa) para que ele lhe conceda uma entrevista exclusiva, e lhe conte então, a verdade sobre seu crime: o estupro e assassinato de uma colega de trabalho (Laura Linney, mais uma vez em belíssima atuação). À medida que Bitsey vai aprofundando-se na investigação da história contada por Gale acaba envolvendo-se numa rocambolesca trama criminal promovendo uma corrida contra o tempo para inocentá-lo. Trama tipicamente hollywoodiana, não? Oh Esfinge, qual será a resposta do enigma? Será ele culpado ou inocente? Conseguirá a senhorita Bloom descobrir a verdade?

Enganados por um filme com rótulo de cinemão, somos surpreendidos desde os primeiros instantes. Basta perceber o acabamento de cada cena, característica inconfundível das obras de Parker. Nenhum quadro é apenas funcional, explorando assim uma belíssima fotografia e uma edição inteligentíssima. O diretor não desperdiça um segundo de seu filme, mérito que vai além da articulação dos elementos técnicos, já que Parker é também um grande diretor de atores e ainda explora aqui o uso de uma narrativa que cria tensões por seu discurso complexo e, neste sentido, bem pouco hollywoodiano, à grosso modo.

São intrigantes os avanços do Sr. Parker, ainda que já fosse brilhante nos primeiros filmes. Neste novo trabalho percebemos seu despojamento na criação de um discurso cênico bastante distinto de seus filmes anteriores. Não podemos esquecer, no entanto do excelente roteiro de Christopher Randolph (ele também um professor de filosofia), que é a sustentação do discurso do filme, sua substância primeira. O que chama particular atenção aqui é o modo como Parker dá forma a essa substância. Ele não só desenha uma forma de colocar este discurso em cena em belos e profundos quadros, mas engana o espectador fazendo-o procurar um filme de saídas fáceis: desvendar o mistério. Verdade é que Parker vai para o set de filmagem com grande clareza do que quer mostrar e principalmente de como isso será feito, maestria de quem inclusive diz que pra passar dois anos de sua vida investindo num novo trabalho deve ter total clareza de que esse é mesmo o projeto do momento.

Em A Vida de David Gale Parker coloca o espectador numa grande cilada, e utiliza recursos bastante comuns pra atrair a atenção do espectador para um determinado ponto, quando a verdadeira saída pode estar num outro extremo pouco imaginado. Tarefa de gênio se revela aqui: fazer o espectador procurar o final hollywoodiano para encontrar-se com um desfecho cujo adjetivo surpreendente ficaria reduzido. Ele nos deixa congelados, atônitos num final que nos mostra que esse mundo hollywoodiano não existe: o mundo real é muito mais cruel que qualquer história do mais perverso serial killer.

Eis o exercício de integridade de um cineasta que nunca se propôs a pouco e que a cada fio de cabelo branco adquirido, afina ainda mais suas ferramentas no caminho de um cinema que deve fazer mais que distrair, mais que mostrar reflexões. Ele provoca nossa percepção, nos conduz por um discurso, e nos faz pensar com outros instrumentos, com o reconhecimento de que o que procuramos não está ali. O enigma não tem a resposta correta. Tem a resposta nua e crua.
_____________________________________
* Especial para o Jornal do SINPRO - Itajaí

3 de agosto de 2005

Cucarachos Bons de Bola!



Antes de cadastrar minha locação, a menina do balcão me diz: "tem certeza que é este? Em espanhol, drama ...?". Concluo: é totalmente compreensível que alguém deteste algum atendente de locadora puxando papo ...

Que os argentinos estão com tudo na produção cinematográfica atual já não é novidade. Que as películas dos nossos hermanitos vão dos mais polêmicos (Plata Quemada) aos mais tradicionais (O Filho da Noiva) também não é novo de se dizer. Então, que dizer de "Valentin", longa do diretor Alejandro Agresti, que (espero!) não deve empacar nas preteleiras?! Um filme de roupinha tão tradicional e ao mesmo tempo de um humor tão incisivo.

A história do menininho que tenta entender o mundo dos grandes toca fundo desde as primeiras palavras do roteiro, em que este pequeno nos apresenta seu universo e se introduz como um irônico narrador dele. Valentim sonha ser astronauta, mora com a avó, quase não vê o pai, e pouco sabe de sua mãe. Seria drama suficiente para um xaropão daqueles, não fosse a abordagem certeira de Agresti, que não cede aos apelos já conhecidos das receitas americanas deste gênero. Na tentativa incessante de resolver esse mundo tão cheio de complicações, Valentin nos chega como o retrato daquela pureza que tivemos e que um dia foi embora sem deixar recado.

Puro carisma e inteligência nessa produção portenha de fotografia exemplar e direção de arte de mestre. Belíssimas atuações de todo o elenco, com charme especial do pequeno Rodrigo Noya, impagável no papel título. Valentin, encanta pelo charme de não ser filme de receita fácil. E o charme do idioma, claro! Sempre!