17 de setembro de 2005

Decífra-me ou Devoro-te*


Nada mais delicioso pra qualquer cinéfilo que poder observar na trajetória de um diretor a maneira como ele remodela sua prática, intensifica suas buscas e amadurece seu trabalho trazendo ao público filmes cada vez mais despojados. Melhor exemplo disso que cineastas como Alan Parker não há. Diretor britânico conhecido no Brasil por O Expresso da Meia Noite, Mississipi em Chamas ou mais recentemente pelo massacrado Evita, Parker começou a carreira nos documentários na década de 60 do século passado, e traz na bagagem cenas memoráveis, como a do banho de sangue de Mickey Rourke e Lisa Bonet em Coração Satânico, a violência física de O Expresso da Meia Noite ou mesmo as estripulias salutares de Antony Hopkins no menos festejado O Fantástico Mundo do Dr. Kellogg. Parker chega aos anos 2000 em excelente forma com A Vida de David Gale.
Primeiro você pensa: “A Vida de David Gale”? Pelo nome soa à atração do Supercine, não? Será mais uma história verídica de alguém que luta contra o câncer? Depois você pensa: dirigido por Alan Parker? Estaria ele passando por uma fase ruim? Realizando alguns filmecos comercialóides para recauchutar sua conta bancária? Ora, o criador de obras primas como as citadas acima não poderia estar passando por esses maus bocados.

Em A Vida de David Gale, pelo contrário, Parker dá sinais de grande integridade e saúde criativa. Neste filme de 2003 o diretor exorciza as famigeradas discussões sobre pena de morte que rondam nossos primos do norte numa abordagem ainda mais cruel. Revelar aqui essa crueldade seria acabar com o deleite dos que vierem a assistir este filme, então tentarei não fazê-lo.

No filme, David Gale (Kevin Spacey, sempre formidável) é um respeitado professor de Filosofia, que vive seus últimos dias numa detenção do Texas. Poucos dias antes de sua execução, David pede a presença da repórter Bitsey Bloom (Kate Winslet, em atuação um tanto chorosa) para que ele lhe conceda uma entrevista exclusiva, e lhe conte então, a verdade sobre seu crime: o estupro e assassinato de uma colega de trabalho (Laura Linney, mais uma vez em belíssima atuação). À medida que Bitsey vai aprofundando-se na investigação da história contada por Gale acaba envolvendo-se numa rocambolesca trama criminal promovendo uma corrida contra o tempo para inocentá-lo. Trama tipicamente hollywoodiana, não? Oh Esfinge, qual será a resposta do enigma? Será ele culpado ou inocente? Conseguirá a senhorita Bloom descobrir a verdade?

Enganados por um filme com rótulo de cinemão, somos surpreendidos desde os primeiros instantes. Basta perceber o acabamento de cada cena, característica inconfundível das obras de Parker. Nenhum quadro é apenas funcional, explorando assim uma belíssima fotografia e uma edição inteligentíssima. O diretor não desperdiça um segundo de seu filme, mérito que vai além da articulação dos elementos técnicos, já que Parker é também um grande diretor de atores e ainda explora aqui o uso de uma narrativa que cria tensões por seu discurso complexo e, neste sentido, bem pouco hollywoodiano, à grosso modo.

São intrigantes os avanços do Sr. Parker, ainda que já fosse brilhante nos primeiros filmes. Neste novo trabalho percebemos seu despojamento na criação de um discurso cênico bastante distinto de seus filmes anteriores. Não podemos esquecer, no entanto do excelente roteiro de Christopher Randolph (ele também um professor de filosofia), que é a sustentação do discurso do filme, sua substância primeira. O que chama particular atenção aqui é o modo como Parker dá forma a essa substância. Ele não só desenha uma forma de colocar este discurso em cena em belos e profundos quadros, mas engana o espectador fazendo-o procurar um filme de saídas fáceis: desvendar o mistério. Verdade é que Parker vai para o set de filmagem com grande clareza do que quer mostrar e principalmente de como isso será feito, maestria de quem inclusive diz que pra passar dois anos de sua vida investindo num novo trabalho deve ter total clareza de que esse é mesmo o projeto do momento.

Em A Vida de David Gale Parker coloca o espectador numa grande cilada, e utiliza recursos bastante comuns pra atrair a atenção do espectador para um determinado ponto, quando a verdadeira saída pode estar num outro extremo pouco imaginado. Tarefa de gênio se revela aqui: fazer o espectador procurar o final hollywoodiano para encontrar-se com um desfecho cujo adjetivo surpreendente ficaria reduzido. Ele nos deixa congelados, atônitos num final que nos mostra que esse mundo hollywoodiano não existe: o mundo real é muito mais cruel que qualquer história do mais perverso serial killer.

Eis o exercício de integridade de um cineasta que nunca se propôs a pouco e que a cada fio de cabelo branco adquirido, afina ainda mais suas ferramentas no caminho de um cinema que deve fazer mais que distrair, mais que mostrar reflexões. Ele provoca nossa percepção, nos conduz por um discurso, e nos faz pensar com outros instrumentos, com o reconhecimento de que o que procuramos não está ali. O enigma não tem a resposta correta. Tem a resposta nua e crua.
_____________________________________
* Especial para o Jornal do SINPRO - Itajaí

3 de agosto de 2005

Cucarachos Bons de Bola!



Antes de cadastrar minha locação, a menina do balcão me diz: "tem certeza que é este? Em espanhol, drama ...?". Concluo: é totalmente compreensível que alguém deteste algum atendente de locadora puxando papo ...

Que os argentinos estão com tudo na produção cinematográfica atual já não é novidade. Que as películas dos nossos hermanitos vão dos mais polêmicos (Plata Quemada) aos mais tradicionais (O Filho da Noiva) também não é novo de se dizer. Então, que dizer de "Valentin", longa do diretor Alejandro Agresti, que (espero!) não deve empacar nas preteleiras?! Um filme de roupinha tão tradicional e ao mesmo tempo de um humor tão incisivo.

A história do menininho que tenta entender o mundo dos grandes toca fundo desde as primeiras palavras do roteiro, em que este pequeno nos apresenta seu universo e se introduz como um irônico narrador dele. Valentim sonha ser astronauta, mora com a avó, quase não vê o pai, e pouco sabe de sua mãe. Seria drama suficiente para um xaropão daqueles, não fosse a abordagem certeira de Agresti, que não cede aos apelos já conhecidos das receitas americanas deste gênero. Na tentativa incessante de resolver esse mundo tão cheio de complicações, Valentin nos chega como o retrato daquela pureza que tivemos e que um dia foi embora sem deixar recado.

Puro carisma e inteligência nessa produção portenha de fotografia exemplar e direção de arte de mestre. Belíssimas atuações de todo o elenco, com charme especial do pequeno Rodrigo Noya, impagável no papel título. Valentin, encanta pelo charme de não ser filme de receita fácil. E o charme do idioma, claro! Sempre!