23 de dezembro de 2007

Estamos de volta...

Os Melhores de 2007
por Malcon Bauer
Bauer, diretamente do Festival Internacional de Cinema Folclórico de Agrolândia!

E agora, o momento mais esperado... Os melhores filmes de 2007. Uma lista que sempre gera polêmica. E eu repito: Gostou? Não gostou? Se não concorda, faça sua lista. Só não deixe de comentar...


Os Melhores do Ano (em contagem regressiva):

10- Piaf – Um Hino ao Amor
Chega da França a melhor performance feminina de 2008. A trajetória da cantora Edith Piaf, da sua infância até sua morte prematura, é representada pela atriz Marion Cotillard de maneira nunca menos que sublime. Mas este não é o único trunfo do filme, que conta com uma direção segura e criativa e um elenco de apoio em grande forma. Tudo só faz com que a atuação monstruosa da protagonista nos absorva por completo. Ao fim do filme, apenas o silêncio. Rompido apenas pelas lágrimas da platéia que jorram em profusão.


09-Não Por Acaso
Um estudo sobre como as pessoas tentam controlar suas vidas. Sobre como um segundo pode fazer a diferença. Um acidente trágico faz a vida de dois personagens se cruzarem neste belo longa do diretor Felipe Barscinski. Emociona, faz pensar, e traz Rodrigo Santoro mais humano do que nunca.

08-Notas Sobre um Escândalo
Cate Blanchett e Judi Dench dividindo a tela. Precisa mais pra este filme ser imperdível? Pois ainda temos um roteiro fantástico e enxuto (o filme tem 85 minutos, uma raridade nestes tempos de filmes de duas horas e meia) que discute velhice, solidão e obsessão. Soberbo.

07-Zodíaco
Quem esperava um thriller no estilo de “Seven” se decepcionou. O novo filme de David Fincher tem muita tensão, porém seu foco é nos três personagens que tiveram suas vidas alteradas devido à sua obsessão pelo famoso assassino. Um trio de atores em grande forma em um épico que percorre trinta anos da história dos EUA em um trabalho de direção brilhante.

06-A Última Noite
O gênio Robert Altman se despede neste filme que, por coincidência, fala de despedidas. Uma dúzia de personagens fantásticos se cruza na última transmissão de um programa de rádio. Um elenco soberbo em cenas tocantes (Meryl Streep e Lilly Tomilyn em um dueto é... demais). Ao final, sente-se muito por ter visto o último filme desse grande cineasta.

05-Mais Estranho que a Ficção
Esquisito, muito esquisito. Esse filme utiliza-se de criativos recursos visuais pra contar a história de um homem que está ouvindo a narração da própria vida. Uma profunda discussão sobre o valor da arte e do ser humano, que pode viver por ela ou para ela. Um filme humano, bonito, emocionante. E esquisito, muito esquisito.

04-O Cheiro do Ralo
Sim, “Tropa de Elite” não está na minha lista. Gostei do filme (afora discussões ideológicas), mas esta pequena comédia estrelada por um Selton Mello em grande forma é o melhor filme brasileiro do ano. Um filme envolvente, que escancara a mesquinhez do ser humano de forma crua e dolorida. Já nasceu cult!

03-Pequena Miss Sunshine
Um road movie onde uma família disfuncional precisa aprender a se relacionar. Parece clichê, não é? Pois este filme independente logo desarma essa impressão, apresentado um elenco fantástico (a jovem Abigail Breslin é um achado, e Steve Carrel já mostra que é um ótimo ator dramático) e um roteiro longe do piegas. Prepare-se para verter lágrimas em um clímax que é ao mesmo tempo emocionante e extremamente patético. E Alan Arkin ainda ganhou o Oscar.


02-Hairspray: Em Busca da Fama
O filme mais legal de 2007. Apesar do roteiro simples (mas nunca simplista), trata do preconceito (em várias formas) de forma agitada e divertida. Um elenco em grande forma solta a voz em canções deliciosas que grudam na memória, e a jovem Nikki Blonsky conquista o coração do espectador assim que surge na tela. E John Travolta faz a sua mãe... Precisa mais?

E o melhor filme de 2007 é (rufem os tambores...):

01- Ratatouille

A Pixar continua se superando. A saga do ratinho tentando se tornar chef em um restaurante de Paris é contada de forma divertida e emocionante. Pode, porém, frustrar um pouco aqueles que esperam que um desenho animado seja apenas “engraçado”, pois possui personagens complexos e momentos dramáticos emocionantes. “Ratatouille” é simplesmente uma obra-prima deliciosa, uma iguaria cinematográfica. E a cena na qual o crítico Anton Ego prova a iguaria do título já entrou pra história.


Menções Honrosas:
Bons filmes de 2007, que estariam na lista se ela fosse maior...

Planeta Terror
Tropa de Elite
Maria Antonietta

Agora é até 2008, pessoal!

Malcon Bauer

22 de dezembro de 2007

O Soluço

Papo de bêbados ontem no Clube da Sinuca:

Raquel [Stüpp, aquela] - Ai Dani, me dá um susto! Eu tô com soluço desde hoje de tarde!

Eu - Tranca a respiração!

Raquel - Já fiz...

Eu - Já bebeu água ao contrário?

Raquel - Já... já fiz de tudo! Me dá algum susto!

Eu - Raquel, seu carro tá pegando fogo!

Raquel - Já fizeram essa, Dani, não funcionou!

Eu - Eu tô tendo um caso com o Lucas [o namorado dela]

Raquel - Ai Dani, eu sei que não é verdade, que vc está fazendo isso pra me ajudar.

Eu - Raquel. Eu tô falando sério.

[silêncio]

O soluço dela passou, mas, uns minutos depois eu é quem tava soluçando.

(...)

Amanha tem lista de melhores do ano por Malcon Bauer!

17 de dezembro de 2007

Melhores e Piores de 2007 - Parte 1

Chega de lirismo nesse blog, gente!

Chegou a hora dos melhores e piores de 2007... De agora até o começo de janeiro ...vamos publicar por aqui as listas dos críticos de cinema amadores mais non-gratos que você já viu...

Começaremos então com a lista de piores do Sr. Malcon Bauer, o Celso Sabatin da ilha da magia... rssss

Vai bunito!


OS PIORES DE 2007
por Malcon Bauer

Bauer no Festival de Cannes


Foi com muita honra que aceitei o convite do querido Chico Lingüiça para publicar aqui minha conceituada lista de melhores e piores filmes do ano.
Comecemos pelos piores, que é muito divertido chutar cachorro morto. Se você não viu estes filmes, sorte sua. Se pensa em ver, pense de novo... E se não concorda com a lista, faça a sua!
E não deixe de comentar!



Os 10 piores filmes de 2007 (em contagem regressiva):




10- Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado
Um filme simplesmente tolo. Desnecessário. A adição da figura do Surfista pouco resolve os problemas da direção frouxa e da falta de carisma do Dr. Destino. Daqueles filmes que você nem vai lembrar de ter visto.

09-Piratas do Caribe: No Fim do Mundo
O terceiro capítulo da saga de Jack Sparrow é histérica e confusa. São necessárias 3 horas pra contar uma história que caberia em pouco menos de duas. Johnny Deep continua ótimo, mas a megalomania afetou todos os aspectos da produção, que anestesia o espectador com um bombardeio de cenas inacreditáveis (no mau sentido).



08-O Pequenino
Refilmagem de um desenho do Pernalonga, este filme tem pelo menos bons efeitos especiais, colando a cabeça de uma adulto no corpo de um anão de forma impressionante. Mas as piadas chulas tornam tudo uma grande bobagem sem graça.

07-Número 23
Outro caso de uma boa premissa que se perde em pelo menos 23 subtramas (não pude resistir) e culmina com uma solução previsível e frustrante. Jim Carrey (com dois personagens) se esforça, mas quando o roteiro não ajuda, isso não adianta muito.

06-A Colheita do Mal
A idéia era boa, mas este suspense sobre as pragas bíblicas acontecendo numa cidadezinha melequenta do sul do EUA faz muitas perguntas e entrega um final idiota, onde o diretor parece pensar: “precisamos de mais feitos especiais.” Sutileza pra que?

05-Fonte de Vida
O diretor de “Réquiem para um Sonho” afundou na própria pretensão. Na busca por ser profundo, ele ataca o espectador com três tramas que não fazem muito sentido mesmo separadamente, quanto mais juntas. Ao final, você acaba achando que é a pessoa mais burra do mundo.

04-Terror em Silent Hill
Um amigo meu disse “O filme é ótimo! O visual é igual ao game!” Mas não estaremos falando de uma outra mídia, onde uma coisa chamada “história” é necessária pra sustentar quase duas horas de desbunde visual? É lindo, mas não entende-se nada...

03-Motoqueiro Fantasma
Tudo bem que a caveira digital em chamas tem mais carisma que o Nicolas Cage, porém isso não basta pra salvar um filme infantilóide e previsível. Mas foi um sucesso, e desta vez veremos a continuação em breve.

02-Eragon
“Guerra nas Estrelas” com dragões! Uma idéia que já nasce ruim torna-se um filme pior. Nada se salva neste pretenso primeiro capítulo de uma trilogia. E pelo fracasso nas bilheterias, eu duvido.

E o pior filme do ano é (com laaaarga vantagem...):



01- Deu a Louca em Hollywood
Em primeiro lugar, só fui conferir esta pérola porque fui convidado! Uma colagem sem sentido de sátiras sem graça entrecortadas por um número incrivelmente irritante de cenas de... rap (?). E “301” (adivinha qual a paródia, hein?) chega em 2008 pelas mãos dos mesmos produtores. Que Deus nos ajude!


E no próximo post, Os Melhores de 2007 por Malcon Bauer, direto da riviera francesa...

16 de dezembro de 2007

Apareça

Poema lindo do corno do Enzo Potel...

Apareça.

Por favor, apareça.

Antes que as migalhas
desta aberração
que vejo no espelho
torne-se mais um esboço
do passado.

Antes que eu nasça
como um vendedor de caldo de cana,
um mestre argentino de tai chi chuan,
um policial, um papagaio,
uma cantora,
um indiano que rouba água.

Antes que o tempo
te traga de novo
sem o aviso de que teu toque
abre caminhos de dor e insapiência.

Surja na simplicidade
de trinta minutos,

não daqui a três mil anos.

Traga as malas no carro
para ficar

para não me dar
perfume à perfídia
que é dizer

até a próxima

encarnação.

27 de novembro de 2007

Manual de empacotamento para principiantes

Comece separando caixas... como se qualquer quantidade de papelão pudesse guardar tudo que se acumula ali dentro da casa já desfigurada. Separe sacos plásticos grandes, como se quisesse sufocar ou tornar lixo tudo aquilo que não quer levar...

Embale com cuidado os livros que leu nesta última estada, e embale com maior cuidado ainda os que já muitas vezes foram encaixotados mas nunca folheados... eles devem guardar segredos que você não quis conhecer. Embale os retratos velhos, os novos, os rasgados, os que tem furo de percevejos, os retratos que mancharam na porta da geladeira, os retratos escondidos.

Embale o pijama que ficou de lembrança e que agora você vai ter que levar. Guarde entre os lençóis alguns abraços matinais com cheiro de chuva das seis e quinze.

Encaixote os bibelôs que fizeram tanta alegria besta, e guarde com eles a simetria da casa, os vidros embaçados, os sons noturnos, as conversas de almoço, as festas não planejadas, as rolhas de vinhos com escritos de datas especiais, os registros de ultimas invenções gastronômicas... Derrame algumas lágrimas no quarto vazio [só depois tire a cortina]. Enrole em jornais os afagos que você não quiser esquecer [jornais garantirão a segurança de objetos frágeis].

Doe os LPs e os VHSs [os tempos mudaram e você não percebeu]. Passe adiante roupas com cheiros especiais... elas servirão melhor a outros... Passe fita de polipropileno pro que não for desencaixotar tão cedo. Ande uma ultima vez de meias por toda a casa vazia. Fume um cigarro na sala, já que ali nunca foi lugar pra isso. As ultimas lágrimas devem ser dispostas sobre a planta adotiva já que você esqueceu de regá-la ultimamente. Calcule o tamanho da árvore dos fundos, compare as recordações com medidas exatas. Memorize o que deixou pra trás pelas marcas que o sol desenhou nas paredes. Tudo está ali ainda.

23 de novembro de 2007

A cada segundo

pra esquecer as biritas paracetamol, pra chorar as pitangas ombro, pra andar descalço varanda, para pegar leve consigo bicho-preguiça, pra dar risada baralho, pra perguntas difícies google, pra bagunçar o sótão Bauman, pra alterar os ânimos serotonina, para sacudir o esqueleto Smiths, pra não levar a si mesmo tão a sério respiração, para o melhor ângulo precisão, pra não ouvir a noite circulador de ar, pra deixar o hoje vivo Vinícius, pra entender o obtuso insônia, para matar o ego: luz branca chapada [em 100%]

28 velinhas...

ai como eu adoro ficar mais velho

aquela sensação de ficar um poquinho melhor na dianteira...

valeu aí...

3 de novembro de 2007

Aos que vieram antes nós:


Por que temos tanta consciência do que nos afeta [e continuamos alimentando o cão]?
Por que sentimos tanta saudade?
Por que não se escolhe quem ama [assim, bem simples] ?
Por que não esculpimos o mundo apenas de objetos e certezas?

Ele olhava à volta e não queria mais entender nada. Foco no teto. Silêncio

- Há quanto tempo o senhor sente essas coisas?
- Não sei. Eu queria não sentir nada. Tem jeito, doutor?

27 de outubro de 2007

Aquele assunto básico...

"Seu gosto é bem do jeito que eu gosto
Bem do jeito, lamento

Que é só mais um lamento entre tantos já feitos
quisera desse jeito lembrar de outros tempos
só pra matar um pouco a saudade
mesmo assim querendo que você não ouça"

[trechim de "Mais um Lamento"de Danilo Moraes / Céu]

21 de outubro de 2007

16 de outubro de 2007

Sete vezes Alzira

Alzira descia na estação de trem e simulava um sorriso receptivo achando que alguém a esperava. Sete vezes por semana descia do trem. Sete sorrisos receptivos às 23:30. Sete vezes ninguém.

Alzira batia o bolo, assava, comia, sozinha. Sete sorrisos gratinados por semana.

Alzira queria culpar o mundo por escrever cartas pras paredes.
Queria culpar o mundo por inventar novos perfumes pra ninguém.
Culpar o mundo por não conseguir ser só.

Alzira queria sonhar ser só e sã.
Queria o céu, mas o céu de Alzira morava tão perto [o sorriso não lhe permitiria tocá-lo].

Alzira olhava a porta da sala
Alzira olhava a porta do fogão

estalava dedos,
respirava
sorrisos
gratinação

nimbus-de-porta-de-sala
gás-de-porta-de-fogão

23:30
sete vezes

14 de outubro de 2007

Descobertas Preciosas!

1. É possível ter vida social em Itajaí [eu já tinha desistido há tempos!];
2. Cerveja também faz bem pra pele;
3. Talk shows com os amigos e cortes de cabelos em massa são uma boa pedida para o fim de semana;
4. Suco de cajú não mata a sede;
5. Ovomaltine faz bem pros ânimos matinais:
6. Bêbados sempre tem o direito de pedir um ombrinho;
7. A saudade que a gente sente quando está feliz é melhor do que a outra [a mais egoísta];
8. A Vanessa da mata ainda fala comigo:


Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa vida
E será uma maldade veloz
Malignas línguas
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Ilegais

[...]

Desse jeito vão saber de nós dois
Dessa nossa farra
E será uma maldade voraz
Pura hipocrisia
Nossos corpos não conseguem ter paz
Em uma distância
Nossos olhos são dengosos demais
Que não se consolam, clamam fugazes
Olhos que se entregam
Olhos ilegais

[...]

Ilegais // Vanessa da Mata

27 de setembro de 2007

Cedotardar

Tom Zé

Tenho no peito tanto medo,
É cedo

Minha mocidade arde,
É tarde

Se tens bom-senso ou juízo,
Eu piso

Se a sensatez você prefere,
Me fere

Vem aplacar esta loucura,
Ou cura

Faz deste momento terno,
Eterno

Quando o destino for tristonho,
Um sonho

Quando a sorte for madrasta,
Afasta

Não, não é isto que eu sinto,
Eu minto

Acende essa loucura
Sem cura

Me arrebata com um gesto
Do resto

Não fale, amor, não argumente
Mente

Seja do peito que me dói,
Herói

Se o seu olhar você me nega
Me cega

Deixa que eu aja como louco,
Que é pouco

No mais horroroso castigo,
Te sigo

26 de setembro de 2007

FELIZ ANIVERSÁRIO

Clarice Lispector



A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.

— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.

— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.

Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca", pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.

— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os e ria.

— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.

— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.

— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra, "a proteger uma criança” ...

— Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah! ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não chegavam logo à Estação?

— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.

Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.

— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.

— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.

Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.

O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e filha" fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada...

— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.

— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava, novamente a campainha da Estação soou... Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.

— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.

— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar se fora feliz com seu pai:

— Dê lembranças a titia! gritou.

— Sim, sim!

— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.

— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.

No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia e refluia no seu coração com pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.

O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.

— "Ela" foi?

— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.

— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.

Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.

Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.

Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.

Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança voavam...

O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança ainda é inocente!" Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina", pensou com cólera, "a criança é inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.

"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.

Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.

A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.

— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.

16 de setembro de 2007

Assim... sem nada



Eu não sei mais o que é ou não é poesia... eu só intuo, e à vezes me encorajo a dizer algo sobre o assunto. Lembro que na terceira série, a "tia" [que não lembro o nome] me deu um "poeminha" pra decorar. Era mais ou menos assim: "não sei de onde venho / não sei onde estou / não sei para onde caminho meus passos / sinto, no entanto, que sou / que existo / que cresço dentro de mim / como uma planta surgida de sua semente". Sempre que havia visitinha de diretora ou de alguém assim ilustre, além de termos de levantar ao lado da carteira em sinal de respeito, cada um tinha que recitar seu poeminha para a visita [...a "tia" apertava um botãozinho e o macaco de cada dia dançava]. Eu lembro que eu não gostava muito da minha performance [pudera!]. Hoje eu costumo me lembrar deste poema dando risada. Eu rio dos versinhos guardados há mais de quinze anos em algum lugar, pois acho piegas, mal feito, coisa de pára-choque de caminhão, sei lá... Mas há algo nele que fala de mim, e isso me assusta um pouco. Talvez seja parte da poesia que há em tudo, as imagens retorcidas que usamos pra dizer algo que não tem graça de ser dito de maneira direta... Talvez eu apenas seja piegas e nada poético. Assim, apoético, retilíneo, sem floreios e sem graça alguma. Talvez eu seja apenas assim.

14 de setembro de 2007

Vento Novo

"É como vento leve
Em seu lábio assobiar
A melodia breve
Lembrando brisa de mar
Mexendo maré num vai-e-vem
Pra se ofertar
Flor que quer desabrochar
Nasceu dourando manhã

Bordando areia
Com luz de candeia pra nunca se apagar

Já passaram dias inteiros
Janeiros
Calendário que nunca chega ao fim
Início sim
E só recomeçar
Bordando areia
Com luz de candeia pra nunca se apagar
E iluminar

Bordando areia
Com luz de candeia pra nunca se apagar"

[ Janeiros - Pedro Luis e Roberta Sá ]

12 de setembro de 2007

Primavera...

As nuvens estão indo embora...
[já não era sem tempo]

"senti uma febre danada,
perdi minha hora marcada,
abri minha porta fechada..."

Enfim... cansei de ser blasé!

[abraço primaveril]

11 de setembro de 2007

Blame anyone!!!



bem melhor né??

5 de setembro de 2007

"Blame Canada!!!"



Minha versão canadense dos ultimos tempos... [que medo]


30 de agosto de 2007

Roberta Sá no lado esquerdo do meu mediaplayer...


"Quatro da manhã
Dor no apogeu
A lua já se escondeu
Vestindo o céu de puro breu
E eu mal vejo a minha mão
A rabiscar, esboço de canção
Poesia vã
Pobre verso meu
Que brota quando feneceu
A mesma flor que concebeu
Perdido na alucinação
Do amor acreditando na ilusão
Canto pra esquecer a dor da vida
Sei que o destino do amor
É sempre a despedida
A tristeza é o grão
A saudade é o chão onde eu planto do ventre da solidão
É que nasce o meu pranto"

[ Lavoura, letra de Teresa Cristima e Pedro Amorim ]

25 de agosto de 2007

Pro dia nascer feliz...



Algumas noites acabam em pizza às 21h,
outras em anti-histamínico e chá de cidreira às 22h.
Algumas noites acabam às 24h na mesa do bar
["me dá uma carona?"]

Alguns dias terminam às 20h com dores nas ancas,
nos tendões,
dores nos ombros,
dores no plexo...
[e outras dores mais elegantes]

Algumas noites terminam sem querer
["pois é... já deu por hoje"]

Algumas terminam em gargalhadas e peixes abissais de celular,
outras começam às 23h com 'Belle and Sebastian' na vitrola velha
Algumas noites começam à 1h com as almofadas
[todas] sobre a cama
... pro king size parecer um bercinho...
Algumas noites tem barulhos indesejáveis
caminhão de lixo
batida policial
cachorros que vêem espíritos [latindo pras paredes]

Algumas noites começam às 5h com cheiro de cigarro na varanda
com poesia barata e com uma dor de cabeça infernal!
Algumas noites terminam com paracetamol e chá de boldo
Algumas noites começam com gastrite, neuroses a arrepios nada sublimes
["tem dias que de noite é foda"]

Algumas começam às 6h com as almofadas no chão
[tem noite que de dia é foda]

Algumas noites não deviam existir...
Alguns dias deviam ser feitos só de claridade
de caminhos certeiros
de retilíneas
de reticências

Alguns dias deviam começar e não terminar
[só pra não escurecer o meu quarto]

22 de agosto de 2007

Eu tenho medo do meu próprio povo!

Trecho bizarro do regulamento do Festival de Teatro de Ponta Grossa - PR, que eu recebi hoje:

"Art. 7º - Não serão aceitas inscrições de espetáculos de teatro de animação (objetos, bonecos, etc.) para concorrer no festival, com o intuito de facilitar o processo de seleção dos espetáculos e valorizar o trabalho do ator. "

Então bonequeiro não é ator?! [Pasmem!]

Em pleno século XXI, depois de todos os "ismos", vanguardas, hibridismos, fusões, conceituações e muito blá, blá, blá, ter que ler isso é de doer os cornos!

Isso porque é um evento organizado por gente do meio teatral que, em teoria, deveria estar dialogando com tudo de "novo" que o teatro tem discutido.

Quando o seu próprio meio teima em ser cafona, não restam muitas esperanças:

Eu passo a corda! Alguém se habilita a chutar o banquinho?!

20 de agosto de 2007

Três cigarros e uma prosa bipolar


Puta que pariu! - disse o ator - e não é que o timbre se esgueira janela afora! Há dias ele se compenetrava em perceber seus próprios chiados. Havia descoberto o incerto, o infortúnio dos que amam sem saber como, dos que põem na cruz qualquer sujeito. Ele não podia mais discenir entre o óbvio e o obtuso. Entre saída e entrada. Entre gesto e ação. Ele se permitiu adentrar aquilo que mais temia.

(Então ele bateu os sapatos, não limpou as soleiras, não virou o disco, e viu-se rodeado dos afagos que vinham de lugar nenhum)

Este dia não lhe deu a doutrina salvadora. Este lugar não trouxe um abraço esperado, tampouco um soluço desembestado de quem anda torto. Ele se viu pura poesia. Ele quis escrever um poema. E tentou dormir com macacos no sótão, com talheres no teto, com risadas no porão. E quis escrever um poema. E preparou um chá, e andou pela casa, e esmigalhou nozes. E quis escrever um poema.

A moça desnuda do sétimo andar agonizava na janela. Ele gritou (oco) contra vidro (fosco) do prédio: vou escrever qualquer merda hoje!!! Está me ouvindo?!

(silêncio noturno, sequer um cachorro se pronunciava)

Qualquer merda - disse o ator - qualquer merda!


[foto da Samara Zukoski, que tá cada vez melhor na fita]

19 de agosto de 2007

Céu de azul e cinza

Fim de semana lindo e doido (doido porque foi lindo, lindo porque foi doido)

Oficina belíssima do espetáculo novo (veja algumas fotos em www.oespacoemaberto.blogspot.com)

Muitas unhas roídas!

Muitas imagens novas na cabeça!

Muitas olhadas para o espaço interno!

E também muitos afetos doidos ( inspiradores)!

Harry, você não vale mesmo um real (e é das pessoas deste naipe que eu gosto)

"às vezes (e isso eu confesso) eu queria ser um copo descartável, um objeto vulgar, o banal, o imprestável...

["eu tenho apego pelas coisas imprestáveis" ?]"

15 de agosto de 2007

Coisas que eu não entendo...

“Haveis de entender, começou ele, que a virtude e o saber têm existências paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no espírito dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo o contato com outros homens, é como se eles não existissem. Os frutos de uma laranjeira, se ninguém os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguém os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais enérgicas, não há espetáculo sem espectador. Um dia, estando a cuidar destas cousas, considerei que para o fim de alumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos anos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existência de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo efeito, poupando tais trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora”.


Machado de Assis, "O Segredo do Banzo"
(Foto roubada do Flickr, do Lucas Viggiani)

13 de agosto de 2007

"Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas podem um dia milagrar flores

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violeta)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus!

Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.) "

Manoel de Barros Livro sobre nada

12 de agosto de 2007

Papito!!!


É uma data comercial besta, mas eu fico besta mesmo assim... Hoje um post pro nosso super-herói gordinho, casca-grossa, engraçado, cabeça-dura e cheio dos super poderes!

Lóviúchuchu !!!

4 de agosto de 2007

Monte você mesmo...

Brincadeira ótema da comunidade do orkut do Will & Grace (coisas do Malcon):

Para criar um nome de drag queen (a sua drag queen) você junta o nome do seu primeiro bicho de estimação + o nome da primeira rua em que você morou...

Assim, Malcon Bauer, cujo primeiro bichinho chamava-se Arco-íris (uma gata), pode ser juntado ao nome Ramos (da Rua Nereu Ramos, ele preferiu usar o sobrenome), e passará a se chamar (uma vez que montada) Arco-íris Ramos...

Assim, algumas personalidades da cena cultural e etílica florianopolitana mudam seus nomes para:

Barbara Biscaro = Fumaça de Montenegro

Higor Lima = Larissa do Amazonas

Daniel Olivetto = Duquesa de Toledo

Vicente Mahfuz = Marcela Guaicurú

Renato Turnes = Poopy Spywack

Milena Moraes = Eca de Campanella

Paulo Vasilescu = Bolinha Bender

e Malcon Bauer = Arco-Íris Ramos (como já tinha mencionado)


E vc?
Qual o seu nominho??

(a gente se diverte com cada coisa...)

27 de julho de 2007

A melhor da semana...





26 de julho de 2007

Dos malefícios que produz o Quintana...


Eu querendo parar de fumar e olha o que o homem diz...


"Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar"
(Mário Quintana)


Vou fumar e depois dormir, que essa semana é daquelas de ócio essencial!

Abraços,

21 de julho de 2007

Nota sobre o tédio...

Hoje fiquei tão entediado que quase escrevi um poema...

[lembrei que "a poesia vem da alma" e não da falta do que fazer]

Fui dormir...

20 de julho de 2007

...loading...


"Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim."


Drummond

1 de julho de 2007

Uma música que anda falando demais...

"After years of expensive education
A car full of books and anticipation
I'm an expert on Shakespeare and that's a hell of a lot
But the world don't need scholars as much as I thought

Maybe I'll go travelling for a year
Finding myself, or start a career
Could work the poor, though
I'm hungry for fame
We all seem so different but we're just the same

Maybe I'll go to the gym, so I don't get fat
Aren't things more easy, with a tight six pack
Who knows the answers, who do you trust
I can't even seperate love from lust

Maybe I'll move back home and pay off my loans
Working nine to five, answering phones
But don't make me live for Friday nights
Drinking eight pints and getting in fights

Maybe I'll just fall in love
That could solve it all
Philosophers say that that's enough
There surely must be more

Love ain't the answer, nor is work
The truth elludes me so much it hurts
But I'm still having fun and I guess that's the key
I'm a twentysomething and I'll keep being me"

[Twentysomething, Jamie Culum]

...e os trinta que não chegam...

Quase de férias!!!

Foto do último dia de aula [os alunos me amam...]

26 de junho de 2007

Mais Bs As

Eu e Lady Stanley num dia de sol e frio!
Wanda!!!
Cozinha!
Marcelo provando os vinhos argentinos
Luís ganhando colinho [e a namorada dele jura que ele é macho]

21 de junho de 2007

Enquanto isso na fila do churrasquinho!



Gente... era ele na fila do pão com linguiça do Catalina Sur, no Boca, Bs As... jura que a gente não ia ter a cara de pau de pedir uma foto... Repare a cara de "tá, meu filho!" do Sr. Coppola...

Na foto eu, o Saulo, a Pati, o João... e o Godfather!

O João foi o melhor:

João - Grande Coppóla, hein!

Coppola - É Côppola!

João - Ahh! Côppola!

[Elaine tira a foto!]

The End

14 de junho de 2007

Buenos Aires!

Hola!!!
¿Que tal?

Llegamos a Buenos Aires hoy por la mañana con un cansancio del infierno, pero, ahora, estamos todos borrachos e felices en el hostel. Hicimos una gira por la ciudad à la tarde, para cambiar deñero, acomer e sacar unas fotos que les posto ahora de la camera de Mai...

Buenos Aires es liiiiinda (para bêbados y sobrios)

Beso

Num café hoje de tarde... brincando com comida... coisa feia

Chopp... aeeeeeee... to perdendo a credibilidade já


Na viagem... comendo, pra variar!

12 de junho de 2007

Momento "eu que fiz"!


8 de junho de 2007

Felicidade é...



Panelão certeiro de lentilha com linguiça e batata em dias de frio
Casa limpa de portas e janelas abertas em dia de sol
Andar de meias na varanda [depois da faxina] molhando suas plantas adotivas
Não se desentender com o computador e roubar net dos seus vizinhos wireless
Poder se dar ao luxo de largar o computador e tomar sozinho uma garrafa de vinho e comer sozinho uma barra de chocolate e ouvir sozinho o "Quatro" do Los Hermanos no repeat
Lembrar que a lucidez é um processo de altos e baixos e compreender que "quando ela chega, você sabe que é pra sempre"
Não se sentir um bolha por não ter a barriguinha da moda, ou aquele carro tchanãnã
Perceber que as pessoas que você mais ama são aquelas que você não entende muito bem
Não ter medo de demagogia!

7 de junho de 2007

Quatro pérolas da última semana!

"É pra caí o cu da bunda!"
[uma comunidade do orkut, que aconselha o uso desta expressão pra quando você estiver diante de algo absurdo]

"Eu não sei, Jônata, eu não sei!!!"
[frase de uma vizinha histérica da Drica]

"E mentira, Naná, É mentiraaa!!!"
[outra frase de vizinha, amiga do Zé]

"Isso é melhor que amor!"
[no blog do Bortolotto, contando sobre um cara adimirando os atriputos de uma atriz de micro-saia]

5 de junho de 2007

Sete palmos pra dentro do espelho...


Então, ele bateu os sapatos. E não deu meia volta, como de costume. Ele olhou mais uma vez as paredes sujas daquele cheiro doce. Fitou no chão os vestígios de cigarro; no teto as coleções de insetos que lhe viriam buscar se algo tardasse. E não mais olhou no espelho como de costume, para ajeitar a barba. E não mais disse a si mesmo que seu olhar mudara. E quis abraçar a si mesmo ainda que soubesse que isto nada consolaria. Naquela noite ele lavou os pratos, virou o disco, tirou o pó das soleiras, e com um respiro ávido, com o peito estremecido, com 'el devenir' [este verbo maldito] na ponta do nariz, ele sorriu nervoso. E quis dizer 'nunca mais' com os lábios hesitantes...

14 de maio de 2007

Ai que medo de mim...



Daniel - Eu quero ver meu e-mail!!!

G-mail - Nosso sistema indica uso anormal da sua conta. Para proteger os usuários do Gmail contra o uso potencialmente nocivo do Gmail, esta conta foi desativada por até 24 horas.
Se estiver usando software de outra marca com sua conta do Gmail, desative-o ou ajuste-o para que esteja de acordo com os Termos de Uso do Gmail. Se achar que está usando a conta do Gmail de acordo com os Termos de Uso, ou normalmente, entre em contato conosco preenchendo este formulário para comunicar o problema.

13 de maio de 2007

Nós fazemos Teatro


[a seguir um texto - quase - atemporal, do Sr. Bonassi]

"Contra a ignorância, o terror, a falta de educação, a propaganda de promessas, o conforto moral, a ordem acima do progresso, a fome, a falta de dentes, a falta de amores, o obscurantismo... nós fazemos teatro.Fazemos teatro pra dar sentido às potencialidades, pra ocupar o tempo, pra desatolar o coração, pra provocar instintos, pra fertilizar razões, por uns trocados, por uma boa bisca, porque é fundamental e porque é inútil. Pra subir na vida, pra cair de quatro, pra se enganar e se conhecer... contra a experiência insatisfatória; contra a natureza, se for o caso, nós fazemos teatro.

Fazemos teatro pra não nos tornarmos ainda pior do que somos. Pra julgar publicamente os grandes massacres do espírito. Pra viabilizar a esperança humana, essa serpente...Nós fazemos teatro de manhã, de tarde e de noite. Nós somos uma convivência de emoções, 24 horas distribuindo máscaras e raízes.Nós fazemos teatro de tudo, o tempo todo, porque acreditamos que a vida pode ser tão expressiva quanto a obra e que devemos ter a chance de concebê-la e forni-la artisticamente. Porque estamos acordados. Porque sonhamos os nossos pesadelos.Nós fazemos teatro apesar daqueles que, por um motivo que só pode ser estúpido, estejam "contra" o teatro. Aliás, o que pode ser "contra" algo tão "a favor"? Nós fazemos teatro contra a mediocrização do pensamento; a desigualdade entre os iguais e a igualdade dos diferentes.

Nós fazemos teatro contra os privilégios dos assassinos de gravata, batina, jaqueta, toga, minissaia, vestido longo, farda, camiseta regata ou avental. Contra a uniformidade, nós fazemos teatro.Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem fazer da realidade.Nós fazemos teatro pra explicarmo-nos - ainda que mal - e ao mal de todos nós dar algum destino menos infeliz.

Nós fazemos teatro pra morrer de rir e pra morrer melhor. Pra entender o inestimável, se esfregar no infalível, resvalar na nobreza, experimentar as mais sórdidas baixezas, pra brincar de Deus...Nós fazemos teatro, comendo o pão que os Diabos amassam, os pratos feitos que as produções financiam e os jantares que as permutas permitem.Nós temos fome da fome do teatro. Porque onde houve e há teatro, houve e há civilização.Fazemos teatro sim, tem gente que não faz e está morrendo, essa é que é a verdade."


Fernando Bonassi
PS: A foto é de O Menino do Dedo Verde [ de uma série de fotos feita por Leandro de Maman e Samara Zukoski ] em homenagem ao teatro e ao meu joelho podre.

7 de maio de 2007

Mais Ricardo...


Dia 10 de Maio - Quinta - 16h
E.B.M. Henrique Studick - Florianópolis

Dia 11 de Maio - Sexta - 17h
Palácio Cruz e Souza - Florianópolis

Dia 18 de Maio - Sexta - 17h
CAV - UDESC - Lages

Entrada Franca!

23 de abril de 2007

Let it be...


Só pra dividr um hit do momento lúcido em que me encontro e que eu não entendo...
(e nem quero entender...)


"When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be.
And when the broken hearted people
Living in the world agree,
There will be an answer, let it be.
For though they may be parted there is
Still a chance that they will see
There will be an answer, let it be.
Let it be, let it be. Yeah
There will be an answer, let it be.
And when the night is cloudy,
There is still a light that shines on me,
Shine on until tomorrow, let it be.
I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be.
There will be an answer, let it be.
Let it be, let it be,
Whisper words of wisdom, let it be"

... música das últimas semanas, que é dos Beatles, mas tem sido muito bem vinda na voz do Sr. Nick Cave... e a frase dos últimos tempos

"A lucidez é um treco muito doido" (Eulírico de Miranda)
E que ela seja sempre bem vinda!

12 de abril de 2007

Humpfffff....

Por mais prolixo que se possa ser, uma imagem fala mais que qualquer texto de blog...

abração...

11 de abril de 2007

Ele não Pára!!!

IL FESTIVALE DI LHS
[ Da coluna de Cesar Valente - De Olho na Capital, 05/04/2007 ]


Por favor me corrijam se eu estiver errado. Mas se o Luiz Henrique da Silveira tivesse sido prefeito de Blumenau, a Oktoberfest não teria sido criada e organizada pelos catarinenses. Ele teria trazido alguém de Munique para fazer a festa.
Esta decisão de trazer um italiano para organizar um festival catarinense é uma acintosa demonstração de desrespeito por nós todos. É um tapa, sem luva, na cara de todos aqueles que, ao longo dos anos, pastaram e pastam tentando animar, gerir e organizar a cultura catarinense.
Chamou-nos, o governo, a nós todos, de incompetentes, de gentinha subdesenvolvida, de incapazes de fazer qualquer coisa de bom. Curvou-se, Sua Excelência, mais uma vez, como colonizado inseguro, ao poder imperial dos estrangeiros. Que, como falam uma língua diferente, devem ser muito melhores e mais cultos.
Arreganha-se o governador à “qualidade” alienígena, negligenciando seu papel de animador, estimulador e fomentador dos talentos locais. Não se vê, nas ações de cultura do governo, respeito por nenhum de nós. Para “estimular” a dança, traz o Bolshoi, para melhorar o ensino, traz um curso francês, para “animar” a cena musical, traz um festival italiano. Em cada museu que ele visita na Europa, pergunta se não querem abrir filial em Santa Catarina.
E como andam as escolas de música catarinenses, as orquestras, as salas de espetáculo, as atividades culturais? Esse novo festival importado faz parte de um programa amplo de popularização da cultura? Ou é apenas mais um delírio bem intencionado de um governante que, no fundo, sonha ser o prefeito de Veneza? Ou Viena?
“CULTURA MUNDIAL”
Não participei da reunião que o governador teve ontem à tarde com o De Masi (que não deve ter vindo de graça, para a reunião), mas fiquei envergonhado com o que li no relato distribuído pela Secretaria de Comunicação.Reproduzem lá, a certa altura, palavras do Quirido Vinícius Lummertz:

“A versão catarinense terá uma formatação um pouco diferente daquela do festival de Ravello, na medida em que destacaremos valores brasileiros e seu contato com a cultura mundial.”

Como diriam os americanos: oh my God! Destacar valores brasileiros no festival de Santa Catarina é considerada uma coisinha adicional, um charme que diferencia do festival original, o de Ravello, na Itália?
Não entendi também essa história de “valores brasileiros e seu contato com a cultura mundial”. Como assim? Valores brasileiros que sejam apenas valores brasileiros não contam? Tem que ter um “contato com a cultura mundial”? Ou isso é pretexto apenas para trazer montoeiras de artistas estrangeiros para uns dias de mordomia no belo estado sulino?
Se alguém, dentre aqueles que têm alguma familiariade com as artes e a cultura brasileiras e catarinenses acredita que esse enfoque Luiz Henriquiano de doutrinar-nos, aos subdesenvolvidos, com os luminares (na opinião dele) da cultura ocidental seja correto, por favor escreva-me com urgência.

26 de fevereiro de 2007

Lembranças que eu não me lembro

Da série "cada um tem o folclore que merece"...


(PS: o que está no colo da lenda sou eu)

24 de fevereiro de 2007

Oscar nele!!!


Próximo domingo tem entrega do Oscar... aquela festa mequetrefe, odiosa, marqueteira, de gosto muito duvidoso, e de índole muito suspeita, que todos nós adoramos, para a qual não deixamos de fazer apostas. E ficamos sempre muito putos no fim da festa.
Este ano - depois de muitos - tem um filme pelo qual eu estou na torcida: Pesquena Miss Sunshine, que é uma das coisas mais bacanas dos últimos tempos na terra do tio Sam.
Dono de direção e roteiro especialíssimos e de atuações impagáveis, o filme é um atestado de cura para a atual pasmaceira do cinema americano, e se o Oscar o premiar, pode estar mostrando que reconhece ainda seu bom cinema.
Então... por um cinema melhor (rssssssss)... vote nela: Miss Sunshine!!!

22 de fevereiro de 2007

Ócio e Culpa

Se tem uma coisa que eu adoro mesmo é o ócio... é como se o meu corpo inteiro estivesse dizendo "por que a vida não é sempre assim, Daniel"... uma sensação de profunda gratidão - aos criadores de feriados - que vai do cucuruto da caixola até a ponta dos dedos do pé... mas é lógico que isto dura muito pouco, porque logo alguém liga comentando algo (ou cobrando algo, ou sugerindo algo...) e ela começa a entrar em cena: a culpa. Pra uma pessoa que trabalha bastante em casa, como eu, os dias de ócio são sempre um problema, porque tá tudo ali na sua frente dizendo "dê um pulinho aqui na frente do micro e trabalhe um pouco, Daniel" (qualquer semelhança com o "venha para luz, Caroline" é mera coicidência...). Aí pra você ter um ou dois dias sem culpa alguma o que você faz? Foge de casa...

Primeiro você foge pra casa do Malcon e fica 24 horas fazendo coisas absolutamente triviais e importantes como: fumar assistindo making of do Alien 3; jogar uma versão particular de imagem em ação, também conhecida como "mímicas de filme", e ver seus amigos terem de imitar uma "orquídea selvagem" ou "gata em teto de zinco quente", e coisas ainda mais bizarras; simular trailer de filmes que não existem nem nunca vão existir; dublar músicas criando traduções absurdas que você espera que ninguém ouça e outras bizarrices.

Depois você corre pra casa do Bárbara - carregando o Malcon - para um breve café antes de pegar uma espécie de balada off-carnaval (estas festas onde você pode fugir de músicas com refrão em vogal). Depois de um café e meia dúzia de fofocas, você tem a excelente idéia de jogar uma rodada de canastra... Adeus balada, o primeiro pit stop é às três da manhã para ir ao bom e velho "The Biggas" na Trindade, o único lugar underground por excelência nesta cidade, onde você pode tomar cerveja barada num ambiente semi-de-luxo, e ver os tipos mais variados... Depois de um ou dois sandubas e um pouco de cerveja nos cornos você volta com seus amigos pra terminar a partida... que só acaba mesmo às seis da manhã... Quem tinha falado em balada mesmo??

Aí você volta pra casa às sete e meia, dorme até as duas da tarde, acorda em outra órbita, e ainda passa a terça feira de carnaval recebendo visitas... Às nove da noite você recebe um espírito de gourmet - que anda sumido na sua casa - e prepara uma massa que seus amigos elogiam, repetem, mas, que você sabe que está uma bosta... É neste momento que a relidade vem a tona e a felicidade que o ócio trouxe começa a ir embora... depois você lava a louça, olha no relógio, e de repente surge ele: o computador, com uma feição triste de quem foi abandonado durante todo o feriado. A culpa começa a roer o seu estômago, e uma enorme check list começa a passar pela sua cabeça... Não é uma episódio de "The Twilight Zone" é a sua relidade mesmo que desperta e te faz planejar outros ócios o mais cedo possível...

27 de janeiro de 2007

Coisas pra ir aprendendo...



Na Ribeira Deste Rio
Dori Caymmi, sobre poema de Fernando Pessoa

"Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio
Nada me impede, me impele
Me dá calor ou dá frio

Vou vivendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada
Vejo os rastros que ele traz
Numa seqüência arrastada
Do que ficou para trás

Vou vendo e vou meditando
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando

Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali
E do seu curso me fio
Porque se o vi ou não vi
Ele passa e eu confio

Ele passa e eu confio"

13 de janeiro de 2007

Diário Catarinense, 13 de Janeiro de 2007
Caderno de Cultura


Metodologia para Monólogos
A lógica do trato no meio político é a velha diplomacia acadêmica, que nos permite o desvio dos diálogos francos em prol da sobrevivência nos cargos


por DANIEL OLIVETTO *

Há pouco mais de 15 dias, o diretor geral da Fundação Catarinense de Cultura, Edson Busch Machado, deixou registrada na imprensa catarinense mais uma de suas belas falas sobre a cultura de nosso Estado, novamente se defendendo das diversas críticas feitas pelos artistas catarinenses, carinhosamente tratados, naquela entrevista por "pequenos grupos tóxicos", apelido que já começa a virar jargão entre a referida classe. Busch Machado sempre foi um homem de palavras muito bem articuladas, e na entrevista concedida ao Diário Catarinense, intitulada Diálogo tem que ser a meta, por um momento cheguei a duvidar de tudo o que vi e ouvi nos últimos quatro anos em que me uni cada vez mais ao grupo tóxico mencionado.

Como atesta o escritor Fábio Brüggemann, no artigo publicado em 30/12 no DC (Grupos tóxicos: eu faço parte), o que mais chama a atenção na entrevista de Busch Machado é a habilidade da argumentação e o tipo de relação que o entrevistado estabelece com temas polêmicos das discussões junto à Frente em Defesa da Cultura, temas que, na entrevista, são habilmente colocados de lado em prol de um discurso sobre as boas ações da FCC.

Na entrevista, somos obrigados a engolir a defesa de artistas como Márcia Mell ou Juarez Machado, entre outros ilustres na constelação catarina, além de aceitar a legalidade atribuída ao meio milhão de reais da porcelana finíssima de Vera Fischer. Parece irônico atribuir tanta defesa a artistas como estes e tanta legalidade a um projeto tão criticado, e que infringe regras básicas para a aprovação de um projeto junto à Lei Estadual de Incentivo à Cultura, aspecto já discutido em outras entrevistas e críticas que sucederam o ocorrido. Ironia fina de quem sabe argumentar diplomaticamente. O entrevistado argumenta, ainda, que "não é papel do conselho fazer uma avaliação de todos os projetos aprovados, qual a sua importância e o que acrescentam". Eu pergunto: como avaliar, então, um projeto cultural coerentemente se estas diretrizes são ignoradas?

Busch Machado menciona um aumento percentual na produção de espetáculos artísticos em SC por interferência da última administração. Entretanto, se traçarmos um breve paralelo entre a quantidade de espetáculos artísticos produzida nos últimos quatro anos e o número de projetos deste gênero aprovado na lei estadual, me parece pouco provável que este aumento de 130% se deva aos recursos e benefícios que a FCC viabiliza. Não quero afirmar que a Lei Estadual seja inútil, pois, como artista, reconheço que ela ainda viabiliza, por suas vias tortas, projetos importantes, porém, o percentual apresentado parece fantasioso. Vale lembrar que nos últimos anos a produção cultural catarinense tem apresentado, sim, um grande aumento não só no número de espetáculos artísticos produzidos, mas no número de filmes, exposições, livros, e CDs lançados neste período, porém, creio ser mais coerente atribuir tal crescimento à autogestão dos artistas e produtores do Estado e ao aporte de editais como os da Funarte, Petrobras e do MinC, entre outras formas de incentivo. Desculpem-me pela franqueza, mas é, no mínimo, incoerente atribuir à FCC tantos méritos.

Quando menciona o necessário retorno de uma secretaria específica para a cultura, a fala de Machado chega ao seu melhor momento. É como se o entrevistado esquecesse tudo o que os grupos tóxicos vinham alertando sobre a dissolução do único órgão representante da cultura em instâncias gerais, que misturam cultura, lazer, esporte e o que mais couber no mesmo balaio. O diretor da FCC usa rebuscada linguagem neste trecho da entrevista quando quer simplesmente dizer: "pois é... isto, surpreendentemente, não deu certo". Nada disso é surpreendente. Os grupos tóxicos já falavam, há muito, sobre a problemática desta política de balaio. Quando o diálogo é a meta, a probabilidade de um deslize é sempre menor! Nos últimos anos, a falta de diálogo entre administração estadual e a classe artística é uma reclamação constante por parte dos grupos tóxicos. De que diálogo estamos falando? O diálogo no Fórum Catarinensidades? Como se pode atribuir tanta importância a um diálogo que se dá num espaço tão pequeno? E todas as outras manifestações, documentos tóxicos e pedidos de audiências, como bem lembra Brüggemann em seu artigo? O mais difícil, nisso tudo, é ter de engolir a capacidade dos amigos da política em articular belos discursos que, por sinal, fazem mais que prometer, pois, promessa já virou clichê há muito. O bom discurso político é de uma verossimilhança invejável e esconde, habilmente, tudo o que já foi dito sobre o assunto em questão. A lógica do trato neste meio é a velha diplomacia acadêmica, que nos permite o desvio dos diálogos francos, escondendo um probleminha aqui, outro acolá, em prol da sobrevivência de tantos postos e cargos. A diplomacia é um método imbatível e (reconheçamos!) - muito sofisticado.

As belas palavras de Busch Machado transformam a reivindicação de um diálogo real numa exigência subjetiva de "uns pequenos grupos tóxicos", aqueles que nas últimas eleições eram chamados, por alguns colegas da imprensa, de "os 11", como se a insatisfação com a atual administração significasse campanha para outro candidato, o 11. É o velho e imortal mecanismo da boa fala! Cada vez mais aprendemos a argumentar de forma eficiente, especializando-nos em ocultar os assuntos que não interessam ao nosso argumento. Não é diferente na política, onde belos palavreados escondem anos de discussão, escondem pancadarias, criam fachadas de um Estado de grande proliferação cultural e incentivo, saúde, empregos, etc. Método brilhante este: o de falar escondendo o que é de projeção menor. Num país cuja política é repleta de jargões, como "eu desconheço este fato", "eu desconheço tal acusação" - aquela medida desesperada de quem não vê mais solução nas normas diplomáticas -, fica difícil acreditar no diálogo como meta política. Os grupos tóxicos querem o diálogo real, frente a frente, e não um solilóquio diplomático. Até aqui, o diálogo não foi meta nem plano B. Até aqui (mais uma vez citando Brüggemann) é tudo monólogo!
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* Ator, diretor teatral e educador, integra a Cia Experimentus Teatrais de Itajaí, graduando em Artes Cênicas no Ceart/Udesc