16 de outubro de 2007

Sete vezes Alzira

Alzira descia na estação de trem e simulava um sorriso receptivo achando que alguém a esperava. Sete vezes por semana descia do trem. Sete sorrisos receptivos às 23:30. Sete vezes ninguém.

Alzira batia o bolo, assava, comia, sozinha. Sete sorrisos gratinados por semana.

Alzira queria culpar o mundo por escrever cartas pras paredes.
Queria culpar o mundo por inventar novos perfumes pra ninguém.
Culpar o mundo por não conseguir ser só.

Alzira queria sonhar ser só e sã.
Queria o céu, mas o céu de Alzira morava tão perto [o sorriso não lhe permitiria tocá-lo].

Alzira olhava a porta da sala
Alzira olhava a porta do fogão

estalava dedos,
respirava
sorrisos
gratinação

nimbus-de-porta-de-sala
gás-de-porta-de-fogão

23:30
sete vezes

Um comentário:

Enzo Potel disse...

ma-ra-vi-lho-so!

"Sete sorrisos gratinados"
que inveja!
eu queria roubar esse poema e coloca-lo no Conto de Facas em 2009!
claro, no capitulo 2, "vinte mil éguas submarinas - poemas marítimos e misóginos" ahahahah

parabéns nego, coloca isso num caderno e deixa crescer, dar frutos...

saudadeee