29 de janeiro de 2006

Não Basta ser Pai...


Woody Allen é o clown dos clowns, com o perdão da palavra. Como podemos acreditar sempre em seus personagens, personas que pouco se diferenciam de sua composição real? A cada filme, Allen é um personagem que não tem outro corpo, nem outra voz. Tampouco se distancia do que parece ser a sua pessoa. A idéia de um não-personagem, de um clown, ou, seja lá o que chamemos no teatro, tem seu equivalente cinematográfico em Woody Allen.

Mas ele é antes de qualquer coisa um dos grandes diretores da contemporaneidade. Sua extensa filmografia inclui clássicos e cults como Bananas (1971), Tudo que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar (1972), A Última Noite de Boris Grushenko (1975), Neurótico, Noiva Nervosa (1977), A Rosa Púrpura do Cairo (1985), Hannah e suas Irmãs (1986), e mais recentemente Tiros na Broadway (1994), Todos dizem eu te amo (1996) e Desconstruindo Harry (1997).
Em Poderosa Afrodite (1994), vemos Allen esbanjando inteligência no melhor de se humor. Na trama, ele é um escritor que resolve conhecer a mãe biológica de seu filho adotivo. A imagem que ele procura não é exatamente compatível com a imagem real: a prostituta e atriz pornô Linda Ash (Mira Sorvino, na impagável performance que a tirou do anonimato), e passa a querer dar a ela uma vida mais digna, arquitetando encontros românticos para a moça, entre outras empreitadas patéticas. Ele tenta lhe arrumar um bom moço (um boxeador) e chega a inventar uma vida perfeita para a Linda. Mas como transformar a deusa da fertilidade numa dona de casa? Que fazer com seu cinturão mágico que seduz mortais e imortais?

A utilização dos mitos gregos dá o charme desta comédia de Allen. Como não comentar a utilização do referencial de uma tragédia como Édipo, para tratar dos dilemas da paternidade nos dias de hoje? O que não faz um pai para construir uma história perfeita para seu filho? Ao remendar a vida da progenitora de seu herdeiro, o escritor lança mão da catástrofe de sua vida atual, um casamento diante de uma crise que ele parece nem perceber.

É basicamente na costura da história e nos referenciais mitológicos e trágicos que Allen consegue ser mais feliz. Ao inserir o coro grego como comentarista das cenas, o diretor não poupa farpa: inteligência e non sense em seu melhor estado (como de hábito).

No entanto, Allen parece ainda mais sábio quando pensamos no porque de seu clown. É impressionante a empatia de seus personagens, o que confere não somente a graça de seus filmes, mas o tom de humanidade. É essa humanidade que não deixa seus filmes caírem na vala comum das comédias americanas, falando aqui de forma geral. É no tom patético de suas personagens que ele traz à tona a humanidade das suas bizarrices. Allen recorre aqui ao mitológico, mas não deixa de falar de gente comum. Não parece haver nada mais catártico* (com o perdão da palavra) e trágico que isso.
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* De catarse, que tem a ver, grosso modo, (Aristóteles que me perdõe) com a identificação espectador-tragédia.
Obs: Este texto foi originalmente escrito para a disciplina de Estética Teatral I

2 comentários:

carol voigt disse...

haaaaaaaaa blog! adoro. vou vir mais aqui agora... beijinhos nego

Anônimo disse...

Por que nao:)