19 de janeiro de 2008

Sobre Minhocas e Afagos

"As minhocas têm a vida invejada pelos homens. Talvez por que os homens sonhem com um afago noturno, um abraço de concha que quando amanhece se alonga, se espreguiça, abraço e mau hálito, e cafuné, e o tatear do peito do outro. As minhocas escavam seu caminho e vivem suas vidinhas sem graça fazendo buracos para fugir de problemas como este: desejar acordar sob um peito e querer acordar também com um animal da mesma espécie sob seu próprio peito, apenas para levar a mão sob os olhos deste outro animal seu, acariciando as pestanas, desenhando com o mindinho o sorriso alheio [os animais humanos gostam de fazer carícias nas pestanas, e nas orelhas, e na epiderme, e no canto esquerdo do peito]. As minhocas acariciam somente a terra, numa jornada sem rumo, alheia a qualquer lucro besta. O animal humano quer ter um peito - o mesmo - toda manhã, sob o qual repousaria a vida sonhada de uma minhoca, despreocupada, alheia, desconcertada. Quer ter o peito que envelhece - o mesmo - todos os dias, manhãs frias, dias de enchente, tardes de suor, noites de pratos quebrados, madrugadas de edredons e pés frios escavando o algodão. Eu queria ser uma minhoca, assim, simples, doce, sublime, de verdade, o que eu queria era não ter mão pra não esperar afagar ninguém. Não ter cocuruto pra não mais esperar afago algum. Eu queria enfiar o topo da minha cabeça na terra e sair ali do outro lado do continente asiático, ou numa encosta escandinava, ou no cú do mediterrâneo, num lugar qualquer, onde não se espera que ninguém surja pra reconfortar essa vida que não é de túneis e sim de buracos sem saída. A vida do animal que não é minhoca é um buraco que termina em lama. Eu odeio viver uma vida que não é uma vida de minhoca, e ao mesmo tempo saber que minhocas existem."

Alzira


Veja “Liloca, a minhoca” em, www.rosetaseespinhos.blogspot.com, um presente (talvez) involuntário do Greg.

4 comentários:

gregory haertel disse...

Liloca e Alzira. Que figuras, hein?
Bom te ver escrevendo com freqüência.
Vamos tentando cavar os nossos túneis sem nos preocupar aonde vão dar. Se derem em algum lugar, ótimo. Se não derem, dane-se. O importante é cavar.
Beijos

Paula Braun disse...

Não gosto, não invejo, não quero ser minhoca. A menina que ri é a menina que chora e seca a lágrima na frente do espelho, pra ver como é a cara da tristeza.
Gosto de cavar esperando algo, mesmo que dê em nada, mesmo que dê em qualquer outra coisa.

BEIJOCA da não-adepta da teoria da minhoca.

Enzo Potel disse...

minhocas também são espetadas vivas em anzóis!!!

estou com Paula Braun!!! hahaahaah

mas o texto tá otemo... como diria minha orientadora na facul: tu soubesses focar na verve (?????) da minhoca.

bisous!

Sandra Knoll disse...

tu não devex, ams se tu precisax...
ai, sei lá...to mais pra coala do que pra minhoca hoje!
Dani....tá lindo o texto! Tudo que conversamos na tarde melancólica de domingo chuvoso.